Abobado

Odeio petralhas | Raça de sangue ruim; corruptos, bandidos, oportunistas, picaretas, malandros…

Archive for agosto 28th, 2012

Opinião do Estadão: A mágica não funcionou

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Além de sua singular biografia, o temperamento caloroso e a capacidade de sedução do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva – que dele fazem um "encantador de serpentes", na avaliação do antecessor e adversário Fernando Henrique Cardoso – foram o passaporte que usou de caso pensado e a mais não poder em suas andanças pelo mundo antes, depois e, principalmente, durante seus oito anos de Planalto. Ele se tornou "o cara", no memorável elogio do presidente Barack Obama, ao apresentá-lo ao chefe do governo australiano no intervalo de uma reunião do G-20 em Londres, em 2009. "Ele é o político mais popular do mundo", explicou ao seu interlocutor.

Há pouco, Lula teve mais uma oportunidade para ligar o seu charme diante de um estrangeiro – o jornalista americano Simon Romero, correspondente do New York Times no País. Uma reportagem publicada domingo, sob o título O ex-presidente do Brasil voltou à linha de frente, a propósito da retomada de sua "posição de combate" depois de um penoso tratamento contra o câncer na laringe diagnosticado em outubro, descreve como ele se acerca do entrevistador e lhe dá uns tapinhas no joelho para fazê-lo entender por que não pretende desacelerar: "A política é a minha paixão". Mas admitiu que "não é fácil saber como atuar no papel de ex-presidente".

Mas se ele foi eloquente, e quem sabe persuasivo, ao criticar a Europa pelo modo como trata a crise da dívida – argumentando que, se a Alemanha tivesse resolvido o problema grego anos atrás, a situação não teria chegado aonde chegou – e, ainda, ao prever a reeleição da "minha candidata" Dilma Rousseff em 2014, a mágica parece não ter funcionado quando teve de enfrentar o inevitável tema do mensalão. O único arrimo que encontrou para a sua declaração, repetida pela enésima vez, de que o escândalo simplesmente não existiu foi o trôpego raciocínio de que o PT não precisava comprar deputados para votar com o governo porque este já dispunha de maioria parlamentar graças às alianças políticas que tinha fechado.

Lula, pelo visto, quer que os leitores do New York Times interessados em assuntos brasileiros, já não bastasse a opinião pública nacional, acreditem numa patranha. Duas, a rigor. Primeiro, a de que tais alianças se formaram sem que dinheiro ilícito (ou a promessa de) mudasse de mãos. Segundo, a de que a paga original para caciques partidários como os do PTB e do então PL tornou supérfluos novos desembolsos com recursos ilícitos, dessa vez distribuídos no varejo a políticos de diversas legendas, indicados pelo maquinista do trem pagador, o tesoureiro petista Delúbio Soares. Na sua tentativa de tapar o sol com peneira, negando o óbvio que se esparrama pelas 50 mil páginas da ação penal 470, Lula não disse – nem lhe foi perguntado – por que então falou em "erro" dos companheiros, considerou-se "traído" e pediu "perdão" aos brasileiros, antes de empunhar a teoria do "golpe das elites".

O ex-presidente – de quem se pode dizer tudo, menos que seja bobo – fez, na entrevista, a apropriada expressão corporal de respeito absoluto às decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) no julgamento do caso que, para ele, não existiu. "Quem for considerado culpado que seja punido, quem for declarado inocente seja absolvido", afirmou. A aparente platitude é a mais recente incursão de Lula por aquilo que, ainda no seu primeiro mandato, a cientista política Luciana Fernandes Veiga, do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), chamou a "quase-lógica" das suas manifestações. Afinal, como acatar um tribunal que apontasse e punisse os culpados por delitos que simplesmente não ocorreram?

O Lula que declara se curvar de antemão aos veredictos do Supremo Tribunal não é evidentemente o mesmo que mostrou a sua verdadeira face quando se divulgou que tentara pressionar – ou chantagear – um dos ministros da Corte, Gilmar Mendes, para adiar para depois das próximas eleições municipais o julgamento do mensalão. Para quem espera exercer a sua paixão pela política enquanto tiver forças para tal, Lula receia ter de se haver até o fim com um resultado adverso no STF.

Acabou! O mensalão é agora uma realidade histórica atestada também pelo Supremo!

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Um grande dia ontem para o Supremo Tribunal Federal — e que a Corte continue a marcar encontros com um bom futuro. Está enterrada a quimera lulista, a saber: a fantasia de que o mensalão nunca existiu. O Apedeuta voltou a repetir essa ladainha em entrevista ao New York Times, publicada no dia 25. Qualquer outro, com um mínimo de bom senso, não faria tal afirmação agora ao jornal mais importante do mundo. Mas Lula é quem é. Tentava, mais uma vez, intimidar a corte. Vamos ao que interessa. Henrique Pizzolato, ex-diretor de marketing do Brasil, já foi condenado por peculato, lavagem de dinheiro e corrupção passiva. Marcos Valério e dois sócios, Ramon Hollerbach e Cristiano Paes, também — só que, no caso deles, é corrupção ativa. Até agora, 6 dos 11 ministros optaram pela condenação. Esses votos significam o reconhecimento claro, inequívoco, indubitável de que o mensalão — ou como se queira chamar aquela penca de crimes — existiu. Se Márcio Thomaz Bastos considerou que o voto de Ricardo Lewandowski em favor do deputado João Paulo Cunha significava a vitória da “tese do caixa dois”, como chegou a dizer em entrevista, os seis a zero contra Pizzolato já significam a derrota.

Ou por outra: A CONDENAÇÃO DE PIZZOLATO — nem Lewandowski e Dias Toffoli tiveram a coragem de negá-lo, porque também a desmoralização tem lá o seu decoro — CORRESPONDE AO RECONHECIMENTO DE QUE HAVIA UM SISTEMA EM OPERAÇÃO. Um sistema que ROUBOU DINHEIRO PÚBLICO. Quando cinco ministros endossaram o voto do relator, Joaquim Barbosa, estavam a dizer que os cofres do banco foram assaltados, os recursos transferidos para a conta da agência de Valério e, dali, para os chamados “mensaleiros”.

Acabou! Todo o esforço de Lula e dos petistas para negar o óbvio foi em vão. É claro que estou entre aqueles que acham que José Dirceu também tem de ser condenado — porque acho, a exemplo da Procuradoria-Geral da República, que ele era “chefe da quadrilha”. Atenção, no entanto, para o que vem: ainda que ele não seja, o mensalão já é uma realidade histórica atestada também pela mais alta corte do país. E olhem que cinco ministros ainda não votaram. Como o voto se dá na ordem inversa da antiguidade, sobraram nesta segunda metade quatro ex-presidentes — Cezar Peluso, Gilmar Mendes, Marco Aurélio Mello e Celso de Mello — e o atual, Ayres Britto. Sabem o peso que tem a sua palavra.

O caso João Paulo

Dias Toffoli, para a surpresa de ninguém, acompanhou o voto de Ricardo Lewandowski no caso do deputado João Paulo Cunha, inocentando-o de todas as acusações — e, nos crimes concernentes ao esquema da Câmara, também Valério e seus sócios.

Não entendi — e as pessoas com as quais falo, pouco importa a opinião que tenham sobre o mérito, também não entenderam — qual a diferença entre o que fez Pizzolato e o que fez João Paulo. O modo como ambos agiram é rigorosamente igual. Lewandowski, obviamente, sabe disso. Toffoli também. Por que os dois ministros condenam um e absolvem outro é, do ponto de vista lógico, um mistério. Logo, a explicação tem de ser buscada nas circunstâncias.

Ainda que a agência de Valério tivesse mesmo prestado os serviços para os quais foi contratada — não é o que os autos indicam —, as evidências de crime estão todas lá, muito especialmente o saque de R$ 50 mil na boca do caixa. Para os dois ministros, tudo indica, o problema de Pizzolato é não ser político. Como poderia alegar caixa dois de campanha?

Isso dá pistas, parece, do tratamento que a dupla pretende dispensar aos demais políticos. Afinal, convenham: se João Paulo, que recebeu dinheiro da empresa que mantinha contrato com a Câmara, é “inocente”, o que não dizer dos outros, que não tinham celebrado contrato nenhum com Marcos Valério?

Por Reinaldo Azevedo