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Opinião do Estadão: A mágica não funcionou

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Além de sua singular biografia, o temperamento caloroso e a capacidade de sedução do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva – que dele fazem um "encantador de serpentes", na avaliação do antecessor e adversário Fernando Henrique Cardoso – foram o passaporte que usou de caso pensado e a mais não poder em suas andanças pelo mundo antes, depois e, principalmente, durante seus oito anos de Planalto. Ele se tornou "o cara", no memorável elogio do presidente Barack Obama, ao apresentá-lo ao chefe do governo australiano no intervalo de uma reunião do G-20 em Londres, em 2009. "Ele é o político mais popular do mundo", explicou ao seu interlocutor.

Há pouco, Lula teve mais uma oportunidade para ligar o seu charme diante de um estrangeiro – o jornalista americano Simon Romero, correspondente do New York Times no País. Uma reportagem publicada domingo, sob o título O ex-presidente do Brasil voltou à linha de frente, a propósito da retomada de sua "posição de combate" depois de um penoso tratamento contra o câncer na laringe diagnosticado em outubro, descreve como ele se acerca do entrevistador e lhe dá uns tapinhas no joelho para fazê-lo entender por que não pretende desacelerar: "A política é a minha paixão". Mas admitiu que "não é fácil saber como atuar no papel de ex-presidente".

Mas se ele foi eloquente, e quem sabe persuasivo, ao criticar a Europa pelo modo como trata a crise da dívida – argumentando que, se a Alemanha tivesse resolvido o problema grego anos atrás, a situação não teria chegado aonde chegou – e, ainda, ao prever a reeleição da "minha candidata" Dilma Rousseff em 2014, a mágica parece não ter funcionado quando teve de enfrentar o inevitável tema do mensalão. O único arrimo que encontrou para a sua declaração, repetida pela enésima vez, de que o escândalo simplesmente não existiu foi o trôpego raciocínio de que o PT não precisava comprar deputados para votar com o governo porque este já dispunha de maioria parlamentar graças às alianças políticas que tinha fechado.

Lula, pelo visto, quer que os leitores do New York Times interessados em assuntos brasileiros, já não bastasse a opinião pública nacional, acreditem numa patranha. Duas, a rigor. Primeiro, a de que tais alianças se formaram sem que dinheiro ilícito (ou a promessa de) mudasse de mãos. Segundo, a de que a paga original para caciques partidários como os do PTB e do então PL tornou supérfluos novos desembolsos com recursos ilícitos, dessa vez distribuídos no varejo a políticos de diversas legendas, indicados pelo maquinista do trem pagador, o tesoureiro petista Delúbio Soares. Na sua tentativa de tapar o sol com peneira, negando o óbvio que se esparrama pelas 50 mil páginas da ação penal 470, Lula não disse – nem lhe foi perguntado – por que então falou em "erro" dos companheiros, considerou-se "traído" e pediu "perdão" aos brasileiros, antes de empunhar a teoria do "golpe das elites".

O ex-presidente – de quem se pode dizer tudo, menos que seja bobo – fez, na entrevista, a apropriada expressão corporal de respeito absoluto às decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) no julgamento do caso que, para ele, não existiu. "Quem for considerado culpado que seja punido, quem for declarado inocente seja absolvido", afirmou. A aparente platitude é a mais recente incursão de Lula por aquilo que, ainda no seu primeiro mandato, a cientista política Luciana Fernandes Veiga, do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), chamou a "quase-lógica" das suas manifestações. Afinal, como acatar um tribunal que apontasse e punisse os culpados por delitos que simplesmente não ocorreram?

O Lula que declara se curvar de antemão aos veredictos do Supremo Tribunal não é evidentemente o mesmo que mostrou a sua verdadeira face quando se divulgou que tentara pressionar – ou chantagear – um dos ministros da Corte, Gilmar Mendes, para adiar para depois das próximas eleições municipais o julgamento do mensalão. Para quem espera exercer a sua paixão pela política enquanto tiver forças para tal, Lula receia ter de se haver até o fim com um resultado adverso no STF.

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