Abobado

Odeio petralhas | Raça de sangue ruim; corruptos, bandidos, oportunistas, picaretas, malandros…

Archive for novembro 2nd, 2012

Chantagem no Palácio

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Rodrigo Rangel, Veja

O empresário Marcos Valério sempre se comportou como um arquivo vivo. Todas as vezes que enfrentava dificuldades financeiras, ameaçava revelar os segredos que guardou do período em que era um dos homens mais influentes do governo Lula. Sempre que problemas cobriam o horizonte, ele o clareava lembrando os antigos camaradas das coisas que sabe e pode revelar. Nas circunstâncias em que era tomado pelo medo de que algo lhe acontecesse, saber muitos segredos o tranquilizava. Agora, condenado a quarenta anos de prisão por operar o maior esquema de corrupção da história, o mensalão, o empresário ameaça de novo contar o que sabe. Uma reportagem da última edição de VEJA mostrou que em setembro Valério mandou um fax ao Supremo Tribunal Federal pedindo proteção de vida em troca de informações. Ele também procurou o Ministério Público citando três personagens sobre os quais teria muito que dizer: o ex-presidente Lula, o ex-ministro Antonio Palocci e o ex-prefeito de Santo André (SP) Celso Daniel. Valério diz ter muito a contar, inclusive sobre outros episódios que mancharam a reputação do PT e, assim como o mensalão, envolvem desvio de recursos públicos e corrupção.

Entre 2002 e 2005, quando explodiu o escândalo da compra de apoio no Congresso Nacional, Marcos Valério participava de um restrito grupo encarregado de arrecadar dinheiro para financiar ações clandestinas do PT e de seus dirigentes. Segundo relato do próprio publicitário, foi nessa condição que ele testemunhou uma cena de chantagem contra o então presidente Lula e seu chefe de gabinete, o ministro Gilberto Carvalho. Os dois estavam sendo extorquidos por pessoas envolvidas no caso de corrupção e morte do ex-prefeito Celso Daniel, ocorrida em janeiro de 2002. Marcos Valério afirma que foi chamado pelo PT para ajudar a resolver o problema. Era início de 2003, nos primeiros meses do governo Lula. O empresário contou que foi convocado para uma reunião com o então secretário-geral do PT, Silvio Pereira, e o empresário Ronan Maria Pinto, apontado pelo Ministério Público como integrante de um esquema de recolhimento de propina montado pelos petistas na prefeitura de Santo André. O empresário Ronan Pinto, conta Valério, ameaçava envolver Lula e Gilberto Carvalho no episódio. O publicitário relata como reagiu quando lhe pediram para levantar o dinheiro necessário para apaziguar o empresário. “Eles achavam que (o pagamento) ia ser através de mim, e eu falei assim: ‘Nisso aí eu não me meto, não’.”

Valério não dá mais detalhes, mas se mostra disposto a contar tudo o que sabe do caso à Justiça. Até hoje as circunstâncias da morte de Celso Daniel são intrigantes. O prefeito foi sequestrado em 18 de janeiro de 2002. Dois dias depois, o corpo foi encontrado numa estrada em Juquitiba, município da Grande São Paulo. No momento em que foi sequestrado, Celso Daniel estava acompanhado do amigo e empresário Sérgio Gomes da Silva, o Sombra. A investigação policial concluiu que Celso Daniel foi mais uma vítima de crime comum. O Ministério Público, porém, discordou dos policiais. Os promotores sustentam que o ex-prefeito de Santo André teria sido morto pelo grupo que se beneficiava de um esquema irregular de propina na prefeitura. Sérgio Sombra teria armado a cena do crime. O amigo do prefeito integrava o esquema de corrupção junto com Ronan Maria Pinto, dono do maior jornal da cidade, de empresas de ônibus e de uma empresa de coleta de lixo. Bruno Daniel, irmão do prefeito, disse às autoridades que o ex-chefe de gabinete de Lula e atual ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, conhecia bem o esquema de corrupção.

Marcos Valério afirma que, apesar do apelo que recebeu de Silvio Pereira, preferiu não participar da operação. Embora negue que tenha conseguido o dinheiro, Valério diz que, no fim das contas, Ronan Pinto foi atendido. Ele garante que sabe quem pagou e, principalmente, como foi a guerra para acertar as contas com o empresário. O pagamento, afirma, foi feito por um amigo pessoal de Lula. “Envolve um banco que não faz parte do mensalão.” Valério diz que esse é apenas um “pedacinho” da história. Os personagens da trama têm outros pontos de contato. Silvio Pereira, o petista que Marcos Valério diz ter conduzido a negociação da chantagem, foi denunciado como integrante da cadeia de comando do mensalão, mas fez acordo com o Ministério Público, prestou 750 horas de serviços comunitários e, com isso, se livrou de ser julgado pelo crime de formação de quadrilha. Silvinho, como é chamado pelos companheiros, era um dos encarregados de gerir a lista de indicados para cargos na máquina federal nos primeiros anos do governo Lula.

Gilberto Carvalho, fiel escudeiro de Lula, era um dos mais poderosos secretários da gestão de Celso Daniel. Ronan Pinto era da cozinha do PT. Para o Ministério Público paulista, ele era um dos responsáveis pela coleta de propina entre empresários de Santo André e pela distribuição do dinheiro a pessoas do partido. Esse mesmo esquema, esquadrinhado na esteira das investigações do assassinato de Celso Daniel, também promoveu desvios milionários na prefeitura.

Na semana passada, VEJA revelou que o Supremo Tribunal Federal recebeu um fax assinado por Marcelo Leonardo, advogado de Valério, informando que o empresário estava com a vida em risco e mencionando a lei da delação premiada, instrumento pelo qual criminosos podem ter a pena reduzida caso auxiliem as autoridades contando o que sabem. O presidente do tribunal, Ayres Britto, enviou o ofício ao relator do processo do mensalão, ministro Joaquim Barbosa. De pronto, os dois ministros suspeitaram que poderia se tratar de uma artimanha de Valério para atrapalhar o julgamento. Ainda assim, e como havia menção a risco de morte, decidiram encaminhar o documento ao procurador-geral da República, Roberto Gurgel. O conteúdo do fax está protegido por sigilo judicial.

Naqueles mesmos dias, Marcos Valério bateu à porta do procurador-geral. A um amigo, ele disse que viajou para Brasília em segredo e que entrou no prédio da Procuradoria pela garagem, sem se identificar. Relatou que disse ao procurador aquilo que vinha dizendo em privado já havia algum tempo: que tem revelações importantes a fazer sobre o mensalão, inclusive sobre o verdadeiro papel do então presidente Lula no esquema. Valério diz ter como provar que Lula sabia de tudo. O empresário conta, ainda, que pelo caixa do mensalão passaram 350 milhões de reais, muito mais do que o valor rastreado até agora pelos investigadores, e que figurões do PT ligados ao ex-presidente Lula se revezavam na missão de mantê-lo em silêncio com a promessa de impunidade — o que não aconteceu. Na última quinta-feira, o jornal O Estado de S. Paulo noticiou que o encontro de Valério com o procurador-geral da República foi mais do que uma conversa preliminar de um condenado com o seu algoz na tentativa de negociar um acordo. Diz a reportagem que Valério chegou a prestar um depoimento formal, devidamente assinado por ele e por seu advogado, em que fala de Lula, do ex-ministro Antonio Palocci e do caso Celso Daniel. Sobre Palocci, o publicitário conta que o ex-ministro participava do esquema de arrecadação de fundos que abastecia os cofres do PT.

Marcos Valério também tem o que revelar sobre outro rumoroso escândalo do governo passado — os aloprados. Em setembro de 2006, militantes petistas foram presos em um hotel de São Paulo com 1,7 milhão de reais. O dinheiro seria usado para comprar um falso dossiê contra adversários políticos do partido. Valério garante que sabe o nome do empresário que arrumou o dinheiro — um mistério que até hoje a polícia não conseguiu desvendar.

Em nota, o ministro Gilberto Carvalho informou que “nunca teve conhecimento de qualquer ameaça ou chantagem feita por Ronan Maria Pinto, diretamente ou por terceiros”. O Instituto Lula não quis se manifestar. Silvio Pereira não foi localizado. O procurador-geral da República evitou falar sobre a conversa com Valério, mas tem dito que só depois do julgamento do mensalão ele vai decidir se o que Valério tem a dizer é suficiente para a abertura de um novo inquérito. O julgamento recomeça nesta semana, com a definição das penas dos 25 réus condenados. Terminada a fase das penas, a chamada dosimetria, os ministros vão analisar os recursos dos advogados de defesa, redigir a decisão definitiva e, por fim, expedir os mandados de prisão. Mesmo que acelerado, esse processo pode consumir pelo menos mais cinco meses de trabalho. Ou seja, os mensaleiros só começariam a pagar suas penas em meados do próximo ano — um tempo longo demais, segundo alguns ministros, que vão adotar duas medidas de segurança para evitar fugas: o recolhimento do passaporte dos condenados e a obrigação de comparecer à Justiça a cada quinze dias. Até lá, Valério estará em liberdade e, como sempre afirma, temente pela sua saúde e sua vida.

Com reportagem de Adriano Ceolin e Hugo Marques

Mensalão: O que Valério contou ao MP, e o que ainda resta contar

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Reportagem de VEJA desta semana mostra que o operador financeiro do mensalão já começou a falar o que sabe ao Ministério Público. Ele tratou do caso Celso Daniel e avisou que há mais o que contar

Em setembro, VEJA trouxe à tona alguns dos segredos guardados por Marcos Valério, operador financeiro do mensalão. Entre eles, a informação de que o ex-presidente Lula teve papel de protagonista no esquema. Pouco depois, o empresário informou o STF, por meio de um fax, que estava disposto a contar o que sabe. Ele também foi ouvido pelo Ministério Público. Reportagem da revista que chega às bancas nesta sexta-feira revela o que Valério disse ao MP, na tentativa de obter um acordo de delação premiada – um instrumento pelo qual o envolvido em um crime presta informações sobre ele, em troca de benefícios. À procuradoria o empresário informou, pela primeira vez, ter detalhes sobre outro caso escabroso envolvendo o PT: o assassinato do prefeito de Santo André, Celso Daniel, em janeiro de 2002.

O relato do publicitário é de que Lula e seu braço-direito, Gilberto Carvalho (atual Secretário Geral da Presidência) estavam sendo extorquidos por figuras ligadas ao crime de Santo André – em especial, o empresário Ronan Maria Pinto, apontado pelo Ministério Público como integrante de um esquema de cobrança de propina na prefeitura. Procurado pelos petistas para dar aos achacadores o dinheiro que eles buscavam, Valério recusou: "Nisso aí, eu não me meto", disse ele em um encontro com Sílvio Pereira, então secretário-geral do PT, e Ronan. Quem relata é o próprio publicitário.

O operador do mensalão afirma que não aceitou entrar no jogo, mas sabe quem acertou as contas com Ronan: um amigo pessoal de Lula, utilizando-se de um banco não citado no esquema do mensalão.

Mais "bombas"

As declarações são apenas parte do arsenal de Valério. Como VEJA havia mostrado já em setembro, o publicitário, que diz temer por sua vida, cogita trazer à luz detalhes sobre o envolvimento de Lula no esquema do mensalão. Mais do que isso: diz ser capaz de desvendar o mistério sobre a origem do 1,7 milhão de reais apreendidos pela Polícia Federal no escândalo do dossiê dos aloprados, em 2006. E de dar detalhes comprometedores sobre a participação do ex-ministro Antonio Palocci na arrecadação de recursos para o caixa do PT.

Valério foi condenado a 40 anos de prisão. É provável que sua delação tardia não tenha grandes efeitos sobre a pena que terá de cumprir. Mas pode ajudar o país a resolver questões que ficaram sem resposta nos últimos anos.

Veja Online

Opinião do Estadão: Proposta indecente

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O governo federal pretende propor ao governo de São Paulo a ocupação militar da Favela de Paraisópolis, onde atuam chefes do PCC, principal organização criminosa do Estado. Conforme afirmou a titular da Secretaria Nacional de Segurança Pública, Regina Miki, a ação seria semelhante à que resultou na "pacificação" do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, em novembro de 2010. Trata-se de uma ideia de quem não conhece São Paulo.

O modelo adotado no Rio é o de recuperação de território perdido para o narcotráfico. Para isso, as favelas (chamadas ali de "comunidades") estão sendo ocupadas pela tropa de elite da polícia fluminense, com o apoio das Forças Armadas e da Força Nacional de Segurança Pública, obrigando os bandidos a abandonar o local. Em seguida, instalam-se as já famosas Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Não é uma ação que vise prioritariamente a prender traficantes, mas sim restabelecer a presença do Estado em áreas nas quais sua atuação era inviabilizada pelo crime organizado.

Em São Paulo o Estado está presente nas favelas, que não são territórios controlados pelas organizações criminosas. Os chefes do narcotráfico utilizam as favelas como esconderijo e base para sua atuação, mas não se impõem como substitutos do Estado, como acontece nos morros do Rio. Uma vez denunciados pelos moradores, o que ocorre com frequência, esses criminosos são presos.

Nada disso impede a secretária Regina de fazer a "oferta" a São Paulo. "É uma crise. A gente estanca a crise e sai de lá (da favela), porque entende a autonomia e a competência do Estado", afirmou ela ao Estado. "A gente fez isso no Rio. Você faz a dosimetria das forças, analisando cada caso." Regina reconheceu a "expertise em segurança" de São Paulo, mas disse que os policiais estão com "medo por eles e pela família deles", referindo-se aos ataques contra Policiais militares (PMs) na região metropolitana.

A reação do governo paulista foi imediata e dura. Para o secretário de Segurança Pública, Antonio Ferreira Pinto, somente quem não conhece Paraisópolis ou mesmo São Paulo poderia ter feito semelhante proposta. "É uma comunidade de 70 mil habitantes. Temos base da PM funcionando lá dentro, guardas-civis metropolitanos, escolas, postos de saúde e diversos equipamentos", disse Ferreira Pinto. O secretário acusou o governo federal de querer "desconstruir a segurança pública" em São Paulo.

Há um evidente odor político na "oferta" do governo federal a São Paulo. As UPPs, convém lembrar, são uma patente do governador Sérgio Cabral (PMDB), grande aliado do governo petista, e sua suposta eficiência foi festejada a tal ponto que se tornou a principal promessa da campanha presidencial de Dilma Rousseff para a área de segurança. Logo no início do mandato, a presidente incluiu o projeto na segunda fase do PAC, mas, 15 meses depois, a instalação nacional de UPPs foi abandonada, por sua óbvia inviabilidade. Mais do que isso: os cortes no Orçamento federal atingiram o Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci), e os Estados que decidiram abraçar a ideia das UPPs tiveram de fazê-las com recursos próprios. Na Bahia, o governador Jaques Wagner (PT) precisou passar o chapéu entre empresários para construir as unidades.

Como se nota, a atual situação de confronto com o crime organizado em São Paulo, com o acentuado aumento do número de homicídios, animou o governo Dilma a oferecer a "ajuda" que o próprio Planalto sabe não ser viável. Logo, trata-se de "oportunismo barato", como salientou, corretamente, o secretário Ferreira Pinto.

A crise enfrentada pelos paulistas na segurança pública não pode ser transformada em peça de jogo político, ainda mais quando agentes do Estado são executados sistematicamente por bandidos. Na quinta-feira, mais dois policiais militares à paisana foram mortos em São Paulo, na Favela de Heliópolis, elevando para 88 o número de PMs assassinados apenas neste ano. A exploração dessa onda de terrorismo contra policiais, com inconfessável objetivo político, é simplesmente indecente.