Abobado

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Petralha em campanha fora de hora

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Não deveria causar espécie a sem-cerimônia com que Alexandre Padilha, agora ex-ministro da Saúde, tem usado os recursos e a visibilidade da imensa máquina pública federal para fazer campanha eleitoral ao arrepio da lei. Pois foi assim, com essa desfaçatez, mas numa escala infinitas vezes maior, que o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva conseguiu erguer seu primeiro "poste", a novata Dilma Rousseff. A experiência com Dilma, e depois com o atual prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, mostra que, mais uma vez, não haverá constrangimento legal e moral capaz de conter a laboriosa indústria eleitoral petista em sua missão de colocar Padilha, o mais novo ungido de Lula, no Palácio dos Bandeirantes.

A campanha irregular de Padilha explorou abundantemente as verbas de publicidade à disposição do Ministério da Saúde. No ano passado, de acordo com levantamento da Folha de S.Paulo, esses gastos somaram R$ 232 milhões, um aumento real (acima da inflação) de 19,7% sobre as despesas do ano anterior. Estas, por sua vez, já haviam sido 18,6% maiores do que o verificado em 2011. Isso significa que, ao longo de toda a sua gestão, Padilha cuidou de abastecer sua máquina de propaganda.

Esse esforço marqueteiro se justifica quando se observa que, entre outros graves problemas, o Sistema Único de Saúde (SUS) perdeu quase 13 mil leitos hospitalares entre janeiro de 2010 e julho de 2013, segundo levantamento do Conselho Federal de Medicina. Essa é uma das razões pelas quais milhares de brasileiros foram às ruas no meio do ano passado para protestar. Em resposta às manifestações, em vez de admitir os desafios e enfrentá-los de verdade, Padilha apelou a soluções mágicas, como o Mais Médicos — mero paliativo ante o descalabro da saúde pública no Brasil.

Nada disso parece envergonhar o novo "poste" de Lula. Ao contrário. Em seu último dia no cargo — mas ainda ministro, frise-se —, Padilha usou o Mais Médicos como pretexto para desferir provocações contra adversários políticos, comprovando que, para os petistas, já não há diferença entre Estado e partido.

Ao se despedir, Padilha afirmou que "nem todo mundo sabe, mas os Estados que mais pediram médicos ao programa foram justamente São Paulo e Minas Gerais" — governados por tucanos, como enfatizou o ministro-candidato. Ele acusou esses governadores, o paulista Geraldo Alckmin e o mineiro Antonio Anastasia, de "absoluta falta de sensibilidade" por criticarem o programa e por adotarem medidas para inviabilizar o trabalho dos médicos, "sobretudo os cubanos". Mas nada disso aconteceu — tal versão, fantasiosa, é apenas parte da conhecida estratégia petista de criar inimigos ideológicos e, desse enfrentamento, auferir lucros eleitorais. "Só quem tem acesso a médico com um estalar de dedos pode ser contra levar mais médicos para a população que mais precisa", discursou Padilha, recorrendo à surrada luta de classes para atacar o partido que ele enfrentará nas urnas — e ao qual ele atribuiu um "legado maldito" na saúde.

O interesse eleitoral ditou também a convocação, no final de janeiro, de uma rede nacional de rádio e de TV para que Padilha pudesse anunciar uma campanha de vacinação com inacreditáveis 40 dias de antecedência — em outras campanhas, Padilha convocou a rede nacional sempre no dia anterior, como deve ser. Ao ser questionado pela oposição sobre a óbvia exploração eleitoral de sua imagem na TV, Padilha disse, candidamente, não entender as críticas: "Não sei o que eles têm contra a divulgação de uma vacina". Dos 4 minutos e 35 segundos de seu pronunciamento, menos da metade serviu para falar da vacinação; o resto do tempo, Padilha usou para elogiar sua gestão à frente do Ministério da Saúde.

O PSDB anunciou que questionará Padilha na Justiça Eleitoral, acusando-o de propaganda antecipada. Mesmo que resulte em alguma multa, esse tipo de processo não deverá refrear o uso desinibido da estrutura do Estado em favor do candidato petista — foi assim nas eleições de Dilma e de Haddad, nas quais Lula frequentemente ironizava a lei que deveria constrangê-lo.

Editorial do Estadão

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