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Novas provas de corrupção na Petrobras

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ÉPOCA revela mais suspeitas de gestão temerária — e também de irregularidades — dentro da estatal

MACACÃO A presidente Dilma Rousseff em Suape, Pernambuco, de uniforme da Petrobras. Ela batizou o petroleiro Dragão do Mar

Na manhã da segunda-feira, dias após o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ter convocado os petistas a defender a Petrobras das mais graves acusações de corrupção na história, a presidente Dilma Rousseff trocou o discreto tailleur preto da Presidência pela clássica jaqueta laranja da estatal. Deixou a labuta no Planalto para fazer campanha no Porto de Suape, em Pernambuco. Numa cerimônia montada às pressas para lançar ao oceano o navio Dragão do Mar, Dilma defendeu incisivamente a Petrobras. “Não ouvirei calada a campanha negativa dos que, por proveito político, não hesitam em ferir a imagem desta empresa que nosso povo construiu com tanto suor e lágrimas”, disse, zangada. “Nada, nem ninguém, conseguirá destruir (a Petrobras). Com o apoio de todas as pessoas, a Petrobras resistiu bravamente às tentativas de desvirtuá-la, reduzi-la e privatizá-la.”

A jaqueta laranja que Dilma ostentava ao discursar já deu orgulho aos brasileiros. Quem não teria orgulho da maior empresa do Brasil, a 13ª produtora de petróleo do mundo e líder inconteste na exploração de óleo em alto-mar? Hoje, é a mesma jaqueta de Paulo Roberto Costa, o ex-diretor da Petrobras preso pela Polícia Federal (PF), acusado de comandar um dos mais vastos esquemas de corrupção já descobertos na estatal, um sujeito mantido no cargo por um consórcio entre PT, PP e PMDB, com o aval de Lula, que o chamava de “Paulinho”. A mesma jaqueta de Nestor Cerveró, o ex-diretor internacional da Petrobras que, indicado por PT e PMDB, é agora acusado de ser o artífice do desastre conhecido como “operação Pasadena”, em que a estatal desembolsou US$ 1,2 bilhão por uma refinaria nos Estados Unidos comprada um ano antes por US$ 42 milhões.

CONEXÃO O ex-ministro José Dirceu, ao levantar o punho depois de ser condenado e preso no caso do mensalão. Um advogado ligado a ele foi contratado para representar a Astra

A jaqueta laranja não é mais a mesma. Nem a autoridade política de Dilma, após ficar claro que ela avalizara a compra da refinaria Pasadena em 2006. Somente agora, tantos anos depois, ela se disse enganada pela diretoria da Petrobras, acusada de não ter explicado corretamente os termos do negócio. Como fica a imagem de gestora competente, marca de Dilma, assim como a jaqueta laranja é a marca da competência da Petrobras? A combinação das duas imagens pareceu fora do lugar. Tudo ali estava fora do lugar. O navio Dragão do Mar fora construído pelo Estaleiro Atlântico Sul, uma sociedade entre as empreiteiras Camargo Corrêa e Queiroz Galvão, ambas suspeitas de pagar propina para conseguir contratos na Petrobras, segundo a PF investiga na Operação Lava Jato.

Nos últimos dias, Maria das Graças Foster, presidente da Petrobras, e Nestor Cerveró, ex-diretor da Área Internacional, foram ao Congresso Nacional falar sobre o caso da refinaria Pasadena. Eles divergiram. Para Graça Foster, “o negócio originalmente concebido tornou-se um investimento de baixo retorno sobre o capital investido.” Para Cerveró, “foi um bom negócio, sem dúvida”. É útil relembrar a cronologia da transação. Em 2004, a empresa belga Astra comprou o controle acionário da refinaria Pasadena, no Texas, por US$ 42,5 milhões. A Astra pagou dívidas antigas, fez investimentos e vendeu 50% da refinaria à Petrobras por US$ 360 milhões. Havia no contrato uma cláusula segundo a qual, em caso de divergência entre os sócios, a empresa divergente deveria comprar a parte do outro. Tal divergência ocorreu em 2008, e a Astra fez uma proposta para vender a refinaria à Petrobras. A Petrobras decidiu não pagar e entrar na Justiça. Perdeu — e foi obrigada a pagar uma indenização de US$ 639 milhões.

O prejuízo, já grande, poderia ter parado por aí. Bastava à Petrobras ter feito um acordo com a Astra. De acordo com documentos inéditos obtidos por ÉPOCA, a Astra estava disposta a negociar. Em vez disso, a Petrobras preferiu entrar na Justiça outra vez. Perdeu de novo – e o prejuízo para o acionista subiu a US$ 1,2 bilhão.

Como um mau negócio se tornou um negócio ainda pior

Até julho de 2009, o negócio de Pasadena era apenas ruim para a Petrobras. Depois, se tornou desastroso — quando não suspeito, tamanha a sequência de más decisões tomadas no curso de muitos anos. Até ali, havia um prejuízo de US$ 639 milhões com uma refinaria que para nada servia, a não ser enriquecer advogados contratados para defender a Petrobras na Justiça americana. E enriquecer também ex-fun­cionários da Petrobras que foram trabalhar na Astra. Somente os advogados contratados pela Petrobras já haviam cobrado US$ 3,9 milhões em honorários. Mesmo perdendo.

A Astra, segundo executivos ouvidos por ÉPOCA, já estava satisfeita com a indenização. Havia outros processos na Justiça americana sobre o mesmo caso, mas a Astra, de acordo com executivos ligados a ela, estava disposta a fazer um acordo para encerrar o assunto. Não interessava extrair, nos tribunais, todo o dinheiro possível da Petrobras. Como uma trading, a Astra pretendia fazer mais dinheiro vendendo petróleo, nos anos seguintes, à própria Petrobras. E a manutenção de um longo e desgastante litígio contra a Petrobras, um dos gigantes do petróleo mundial, também afetava as outras relações comerciais da Astra, com empresas no mundo todo. Segundo esses executivos, a Astra não apenas poderia aceitar fazer um acordo. Ela queria fazer um acordo.

Se a Astra queria encerrar o assunto, quem poderia sair ganhando caso a Petrobras continuasse brigando nos tribunais? E, ainda por cima, brigando com poucas chances de se livrar do prejuízo de US$ 639 milhões — mas com chances razoáveis de aumentar substancialmente esse valor? Sem dúvida, os advogados contratados para prolongar essa briga. Quanto mais tempo e mais processos, mais honorários milionários para eles. Não parece fortuito, portanto, que a decisão de prolongar a disputa judicial tenha partido, na Petrobras, de um grupo de advogados. Ao menos oficialmente.

No dia 9 de julho de 2009, segundo documentos internos da Petrobras, o chefe do Jurídico Internacional, o advogado Carlos Borromeu, defendeu, perante a diretoria da empresa, que a Petrobras continuasse brigando com a Astra nos tribunais americanos. O departamento jurídico da Petrobras, como acontece na maioria das empresas, tem tal peso que raramente uma decisão é tomada em desacordo com a opinião dos advogados. Tem peso também, por óbvio, para escolher que advogados serão contratados para ajudar nos processos. Na Petrobras, os advogados reportam-se diretamente ao presidente — suas carreiras dependem dele. Naquele momento, o presidente era o petista José Sérgio Gabrielli, aquele que aprovara, anos antes, a compra da refinaria. E que, até hoje, defende o negócio.

Naquele dia de julho, Borromeu deveria estar em baixa. Fazia pouco tempo que uma corte arbitral dos Estados Unidos decidira que a Petrobras deveria pagar à Astra a indenização de US$ 639 milhões. Borromeu, sem se abalar pelo prejuízo que ele e seu departamento não haviam conseguido evitar na Justiça, disse aos diretores que a postura da Astra era “belicosa”. Disse também que a estratégia mais inteligente consistia em “prosseguir litigando” com os belgas. Por quê?

Segundo os cálculos apresentados por Borromeu à diretoria, a que ÉPOCA também teve acesso, eram mínimas as chances — 30%, para ser exato — de que a Astra aceitasse um acordo. Borromeu não explicou como chegara a esse percen­tual. Em contrapartida, argumentou, havia uma chance de 50% de que a Petrobras estancasse os prejuízos se continuasse nos tribunais. Logo, a decisão mais sensata era “prosseguir litigando”.

Para diretores que estavam na reunião, e altos executivos da Petrobras que entendiam do caso, os percentuais não faziam sentido. Estavam, na mais benigna das hipóteses, invertidos. O mais provável era que a Astra topasse um acordo. E, diante do tamanho do prejuízo que a derrota final da Petrobras nos tribunais americanos significaria, era preciso articular esse acordo. Gabrielli estava inflexível — não se sabe se por convicção pessoal, se por influência dos advogados ou se por ordens superiores. Como presidente, tinha poder para decidir que “sugestão de encaminhamento” seria feita ao Conselho de Administração, presidido por Dilma. Gabrielli comprou o argumento de Borromeu.

Procurado por ÉPOCA, Gabrielli afirma que “a disputa judicial buscava o melhor resultado para a Petrobras”. “As diferenças entre os sócios eram sobre procedimentos operacionais e o tamanho do investimento a realizar”, diz ele. “Buscamos explicitar as diferenças entre a disputa arbitral sobre essas questões e a judicial, que era o exercício do ‘put option’.” Pasadena foi um bom negócio? Gabrielli afirma que a resposta é “sim” para o momento da compra, mas não teria sido sob o cenário de 2008 a 2012. “Vale lembrar que a refinaria está em operação todos esses anos e, devido à disponibilidade de petróleo leve e barato no Texas, especificamente no campo de Eagle Ford, atualmente é lucrativa, ainda que a Petrobras não tenha realizado os investimentos para capacitá-la a processar petróleo pesado”, diz. Ele sustenta que as cláusulas omitidas do Conselho de Administração — a “put option” (sobre a opção de venda) e “marlim” (referente ao petróleo brasileiro) — não são as responsáveis por transformar um bom negócio no momento da compra, em 2006, em aparente mau negócio no cenário que vai de 2008 a 2012. “Nesse período, o mundo mudou, descobrimos o pré-sal e o planejamento estratégico da Petrobras acompanhou as mudanças”, diz. Quanto à cláusula “marlim”, que garantiria a rentabilidade de 6,9% à sócia da Petrobras no caso de duplicação da capacidade de refino, ela é inócua. “Como não houve o investimento previsto — e essa é a razão da disputa judicial com a Astra —, ela não é válida. Isso foi reconhecido pela Justiça americana.”

Na época da reunião da diretoria, Cerveró não era mais diretor internacional da Petrobras. Pelos bons serviços prestados ao PT e ao senador Renan Calheiros, que também o apadrinhava, fora realocado para a Diretoria Financeira da BR Distribuidora, uma das principais subsidiárias da estatal. Em depoimento ao Senado nos últimos dias, Graça Foster deu a entender que Cerveró fora rebaixado em virtude do mico Pasadena. Nem tanto. É como se Cerveró deixasse de dirigir uma Ferrari para pilotar um Jaguar — e com o mesmo combustível BR. A Ferrari agora estava nas mãos de Jorge Zelada, apadrinhado pela bancada do PMDB na Câmara. Era ele que, ao lado de Paulo Roberto Costa, pilotava o bólido mais veloz da Petrobras, tinha de dar explicações e resolver o problemaço que se tornara Pasadena. Ambos discordavam do cavalo de pau proposto pelo jurídico da Petrobras — e aprovado por Gabrielli.

Os técnicos abaixo deles, também. Nos relatórios internos obtidos por ÉPOCA, eles criticam o resultado da reunião e a posição de Gabrielli. Parte desse material já foi publicado por ÉPOCA — mas a íntegra dos documentos agora revelados detalha os bastidores que levaram a Petrobras a ter ainda mais prejuízo com Pasadena. “Após a explanação (do advogado), resolveu a Diretoria apresentar ao Conselho a sugestão de não negociar-se com a Astra e sim prosseguir com a ação na Corte”, escreveram os executivos da área de Abastecimento. “A razão que fez com que a Diretoria optasse pelo prosseguimento da ação ao invés do acordo deveu-se principalmente pela alegada ‘prepotência’ com que a Astra vem se colocando frente à Petrobras e, segundo colocado na Diretoria, nunca ter havido de parte da Astra uma manifestação de desejar o acordo.”

Eles preferiam o acordo. E tinham argumentos, não apenas legais, para isso. Um deles: “O fato de pessoa altamente credenciada da Astra e membro do seu Board ter procurado uma aproximação para início de entendimentos com a Petrobras”. Em seguida, deixando de lado a dita prepotência dos executivos da Astra, os técnicos afirmaram o óbvio: o acordo significava menos prejuízo num negócio que, use-se lá qual fórmula matemática, já era um mico. “Caso no litígio a Petrobras perca, o custo total irá para cima de US$ 1 bilhão, acrescidos de honorários de sucumbência. Vale lembrar que a Petrobras já perdeu na arbitragem, e a possibilidade de perder na Corte é preocupante”, escreveram.

Diante desse cenário, o que propuseram os executivos? “A ministra Dilma deverá ser procurada para ser informada de que a Astra está procurando entendimentos, inicialmente por canais informais. (…) Com isto, a ministra Dilma deveria, na reunião do Conselho da próxima sexta-feira, comunicar que estão havendo (sic) movimentos de aproximação da Astra com relação a Petrobras e, com isto, o Conselho daria um prazo para que se consumasse o acordo — ou, aí sim, a partir deste prazo não restaria outra alternativa senão prosseguir na Corte.”

Os técnicos foram ignorados, os advogados prevaleceram, e o Conselho presidido por Dilma tomou, mais uma vez e no mesmo caso, uma decisão que, sob a luz do presente, revela-se profundamente danosa aos cofres — e à imagem — da Petrobras. Pode-se argumentar que Dilma e o Conselho de Administração foram, como no começo do caso Pasadena, mal assessorados. Que não tinham acesso às informações necessárias para tomar a melhor decisão possível em favor da Petrobras.

Outros executivos talvez tivessem prestado atenção aos apelos dos técnicos para levar a sério as abordagens informais da Astra. Mesmo depois que o Conselho presidido por Dilma resolveu levar a briga judicial até as últimas consequências, executivos da Astra prosseguiam buscando formas de encerrar o caso — o oposto do que asseguravam, meses antes, os advogados da Petrobras. Tamanho era o desejo dos belgas de pôr fim à disputa judicial que Mike Winget, presidente da Astra nos Estados Unidos, e Kari Burke, diretora da empresa, vieram ao Brasil diversas vezes, em busca de contatos políticos que resolvessem o caso definitivamente.

Segundo empresários e lobistas que mantiveram contato com eles, os diretores da Astra queriam duas coisas: que a Petrobras pagasse os US$ 639 milhões e que as duas empresas voltassem a fazer negócios. Para conseguir, a Astra, de acordo com esses relatos, estava disposta a pagar até US$ 70 milhões à pessoa certa — à pessoa que resolvesse o caso. Procuraram o lobista Fernando Soares, conhecido como Fernando Baiano, e um assessor informal dele, Carlos Mattos.

Como revelou ÉPOCA, Fernando Baiano é parceiro de negócios de Paulo Roberto. Baiano não conseguiu resolver. Procuraram outros lobistas, que também não resolveram. Nas conversas com esses lobistas e empresários, os dois executivos da Astra diziam que haviam contratado um advogado ligado ao ex-ministro José Dirceu para resolver o assunto. Não declinavam o nome do advogado, o método empregado por ele para “resolver”, nem o andamento das tratativas. Para convencer a Petrobras a encerrar o caso, os executivos conseguiram até que o senador americano Ted Kennedy enviasse uma carta à presidência da Petrobras, apelando para a boa relação entre os dois países.

A intensa movimentação dos executivos demonstra que a Astra não estava interessada em faturar os US$ 1,2 bilhão pagos pela Petrobras. Queriam mais — mas em negócios. Ao fim, quem mais ganhou com tudo isso, além dos belgas, foram os advogados contratados pela Petrobras.

Paulo Roberto tenta morder uma fatia do bolo argentino

Os maus negócios — e negócios suspeitos — da Petrobras se espalham pelo mundo. ÉPOCA revelou em março do ano passado que a Petrobras tinha um acordo secreto com o bilionário argentino Cristóbal López, amigo da presidente Cristina Kirchner, para vender metade de suas operações na Argentina. Pelo acordo, a Indalo, empresa de López, pagaria US$ 900 milhões para tornar-se dona de 33% das ações da Pesa, como é chamada a subsidiária da Petrobras, cotada nas Bolsas de Buenos Aires e Nova York. O valor pelo qual a Petrobras se dispunha a repassar o negócio, onde havia despejado bilhões de dólares em investimentos nos últimos anos, era questionado internamente por técnicos. Havia concorrentes dispostos a pagar mais. Após a publicação da reportagem de ÉPOCA, a operação foi abortada pela Petrobras.

Descobre-se, agora, que o ex-diretor de abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa — que está preso — estava envolvido na empreitada. Entre os documentos apreendidos pela PF na casa dele, a que ÉPOCA teve acesso, há uma carta em espanhol datada de 23 de janeiro de 2012, assinada por López e endereçada a José Sérgio Gabrielli, que já se despedia do cargo de presidente da Petrobras (leia abaixo). Nela, López narra um encontro com Paulo Roberto ocorrido seis dias antes, em que foram tratados “temas de interesse comum às duas companhias”, e sugere que fosse iniciada uma negociação exclusiva com a Petrobras. A proposta de López era fundir suas operações no país às da Petrobras e chegar a um valor que permitisse a seu grupo “obter a maioria do capital” da nova companhia criada.

As negociações seguiram. Como mostrou ÉPOCA, em novembro de 2012, López enviou outra carta ao comando da estatal, desta vez a Graça Foster, que assumira a presidência em fevereiro daquele ano. Ele fazia uma nova proposta, desta vez mais tímida: ficar com 25% das ações da Petrobras na Pesa. Àquela altura, Paulo Roberto já estava fora da Petrobras. Dedicava-se intensamente a duas tarefas: garantir o pagamento das “comissões” que ainda lhes eram devidas pelas fornecedoras da Petrobras — e intermediar novos negócios na Petrobras e na Transpetro, conforme está fartamente documentado em suas anotações, a que ÉPOCA teve acesso. Paulo Roberto tentava intermediar a operação do amigo de Cristina Kirchner com a ajuda de um dos maiores lobistas da Petrobras.

Com a publicação da reportagem de ÉPOCA, o negócio deu errado. Mas por que, em primeiro lugar, Paulo Roberto estivera com López? A resposta está em uma cláusula pétrea da política brasileira. As operações da Petrobras na Argentina eram comandadas por apadrinhados do PMDB. As relações dessa turma do PMDB com López haviam começado três anos antes, com a venda para ele da refinaria de San Lorenzo, que pertencia à Petrobras. Como revelou ÉPOCA em agosto do ano passado, com base em documentos e na confissão do lobista João Augusto Henriques, operador do PMDB na Petrobras, os intermediários envolvidos nesses negócios — todos com o aval do PMDB — são suspeitos de cobrar propina de US$ 10 milhões para o “partido”. O PMDB, portanto, estava de bem com López. E, se o PMDB estava de bem com ele, Paulo Roberto, indicado pelo partido, também tinha a oportunidade de estar. E tentou agarrá-la. Agora, o caso é investigado pela PF.

O homem que anotava

Paulo Roberto, a julgar pelo modo como preenchia seus pequenos cadernos moleskine com nomes, datas, valores, era uma máquina de fazer negócios. Nos moleskines apreendidos pela PF, a que ÉPOCA teve acesso, não há espaço em branco. Sobra garrancho e cifrão para todo lado. Entende-se por que os políticos que o apoiavam temem que esse material seja revelado. As anotações referem-se, sobretudo, ao ano de 2012, após ele ser demitido do cargo de diretor de abastecimento. Era uma demissão esperada, cobrada havia muito a Lula por Dilma. Não é à toa que Paulo Roberto tivera, meses antes, o encontro em Buenos Aires com López. Era hora de pensar no futuro.

Nas anotações, aparecem indícios de que Paulo Roberto viajou para Londres e para Paris em junho de 2012, em busca de oportunidades de negócios envolvendo a Transpetro, presidida desde o começo do governo Lula pelo ex-deputado Sérgio Machado, apadrinhado por Renan, com ajuda do senador Romero Jucá, ambos do PMDB. O mesmo Machado que, na condição de presidente da Transpetro, vestiu a jaqueta laranja da Petrobras e, ao lado de Dilma, lançou o navio Dragão do Mar na última segunda. Há muitas referências ao nome dele nas anotações, registrando reuniões ou percentuais (como 5%), ao lado de contratos e nomes de empreiteiras com negócios na Transpetro. A PF as investiga.

Segundo os registros, Paulo Roberto aproveitou a viagem à Europa e passou em Genebra, de maneira a cuidar de sua fortuna pessoal. Além das quatro contas secretas já reveladas por ÉPOCA, os cadernos registram a existência de outras três — uma no banco PKB; outra no HSBC, ao que tudo indica em Dubai; e uma terceira gerida pelo Pictet, um banco da Suíça especializado na administração dos bens de ricaços. As demais contas recebiam, segundo os documentos apreendidos pela PF, dinheiro de comissão de multinacionais do petróleo, como Glencore ou Trafigura. Eram controladas pelos dois genros de Paulo Roberto: Humberto Mesquita e Márcio Lewkowicz. Uma delas, segundo um dos suspeitos de integrar o esquema, recebia comissão de empreiteiras com contratos na construção do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), a obra mais cara da Petrobras, com um custo estimado em R$ 31 bilhões. Era tocada por Paulo Roberto.

Ao lado de Machado, outro nome que aparece muito nas anotações é o empresário Mário Garnero, dono do grupo Brasilinvest, criado em 1975 e atualmente um dos principais bancos de negócios do Brasil, com patrimônio líquido superior a US$ 1,3 bilhão. O Brasilinvest administra um portfólio de projetos de cerca de US$ 6 bilhões. Tem atuação internacional significativa, com parceiros em mais de 20 países. Em agosto de 2012, o Brasilinvest criou uma divisão de Petróleo e Gás e a colocou, num primeiro momento, sob o comando de Paulo Roberto. Um dos investimentos anunciados pela Brasilinvest para o setor foi no Paraguai. No caderno de anotações de Paulo Roberto, há citações a Garnero. Uma delas parece ser a divisão societária da Brasilinvest Oil, Gas & Biofuel: “BOB — 50% MG — 50% PRC”. A sociedade com Garnero foi confirmada por dois amigos de Paulo Roberto. Garnero tinha o dinheiro; Paulo Roberto, o conhecimento e os contatos para fazer negócios na Petrobras.

Estabelecia-se, ali, a união, embora fugaz, de dois dos mais poderosos navegadores do rio em que se misturam as águas da política às do dinheiro. Garnero tem boas relações com o governo petista e com José Dirceu. Relações que se estreitaram por causa de Cuba. Buscando negócios no ramo hoteleiro da ilha, ele foi apresentado pelo ex-deputado Walter Feldman (PSDB-SP) a Luiz Gaspar, empresário brasileiro radicado em Cuba. Isso foi em 2001. Mais de 30 anos antes, Gaspar dera abrigo ao então exilado Dirceu, que deixara o Brasil rumo ao exílio. Gaspar, o amigo em comum, aproximou Garnero de Dirceu na campanha de Lula, em 2002. Dois anos depois, Garnero e a Brasilinvest se associaram à Casaforma, de Gaspar, e à estatal cubana Gran Caribe, para investir US$ 114 milhões na construção de dois complexos hoteleiros em Cuba.

Aparecem outros negócios no exterior nos registros de Paulo Roberto. Conforme descobriu ÉPOCA, a PF suspeita que uma empresa americana, a Sargeant Marine, tenha pagado propina numa das contas de Paulo Roberto na Suíça. O nome da empresa está numa planilha elaborada por Mesquita, genro de Paulo Roberto. Foi apreendida no escritório dele. Nela, a Sargeant Marine aparece como depositante de uma conta com saldo de US$ 192 mil, em razão de venda de asfalto para a Petrobras — área então comandada por Paulo Roberto.

A Transpetro informou, por meio de nota, que o presidente Machado se reuniu com Paulo Roberto “a pedido do ex-diretor da Petrobras, que na ocasião prestava consultoria para instituições e empresas ligadas a diversos setores da indústria do petróleo”. “As proposições receberam o mesmo tratamento de qualquer proposta apresentada à Transpetro. A conclusão foi que não atendiam aos interesses da companhia e, portanto, não tiveram prosseguimento”, diz a nota. A Transpetro acrescentou ainda que “o empresário Mário Garnero e o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa procuraram o presidente da Transpetro para prospectar a viabilidade de implantação de um estaleiro de reparo no Brasil. Após reuniões preliminares, não houve manifestação, por parte dos empresários, para o prosseguimento do projeto”. Por fim, a nota informa que Machado “já foi deputado federal, senador e tem relacionamento de longa data com os senadores Renan Calheiros e Romero Jucá, assim como com diversas lideranças do meio político brasileiro”.

O empresário Mário Garnero, do grupo Brasilinvest, afirmou que “após a saída de Paulo Roberto Costa da Petrobras, por sua experiência na diretoria da empresa, este foi naturalmente um dos primeiros nomes de executivos que nos foi indicado para comandar o setor do petróleo e gás que o Brasilinvest pretendia desenvolver”. “Conhecemos Paulo Roberto Costa há alguns anos em reuniões para prospecção de negócios quando este ainda trabalhava na Petrobras”, diz ele. Segundo Garnero, nenhum negócio deu fruto, uma vez que Paulo Roberto montou à época uma consultoria pessoal que poderia concorrer com o negócio da Brasilinvest, razão pela qual a Brasilinvest terminou a relação. Ele informou que não tem negócios com a Petrobras, com o ex-ministro Dirceu ou em Cuba, embora tenha estudado implantar um hotel lá. “José Dirceu era ministro na época, mas não desempenhou qualquer papel relevante na negociação, visto que se tratava de uma questão estritamente comercial”, diz ele.

A parceria com Garnero pode ter dado errado, mas Paulo Roberto tinha outras em vista. Uma das principais envolvia o empresário Laércio Pereira, ex-dono da Petrosul, uma distribuidora de combustíveis de São Paulo. O nome de Laércio aparece nas anotações de Paulo Roberto, sempre associado a grandes perspectivas de negócios na área de distribuição de combustíveis. As anotações revelam até que ambos voavam juntos em jatinhos. A parceria faz sentido. Em 2007, quando era diretor de abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto concedeu à Petrosul um crédito milionário, sem garantias, para que a Petrosul pudesse vender produtos à estatal. Segundo executivos envolvidos na transação, o negócio foi intermediado pelo advogado Milton Milréu, ligado a Dirceu. A Petrosul deu calote na Petrobras, que entrou com duas ações na Justiça do Rio, em 2008. Ela cobra R$ 100 milhões da Petrosul. Até hoje não recebeu 1 centavo.

ÉPOCA não localizou os proprietários da Petrosul. Milréu afirmou não ter intermediado negócios da Petrosul com a Petrobras nem com suas subsidiárias. Disse, no entanto, ter sido contactado pela Petrosul para trabalhar em processos envolvendo dívidas da companhia com o governo federal. “Não aceitei o trabalho”, disse. Nos anos 1980, Milréu apareceu numa investigação da PF sobre fraudes na Previdência Social. Ele aparecia como mandante de grampos em telefones de servidores do governo federal e até do então vice-governador de São Paulo Orestes Quércia. Ainda de acordo com as investigações, Milréu intermediava o pagamento de propina a juízes que atuavam em casos de seu interesse.

As planilhas do doleiro

Entre o material apreendido pela PF com Paulo Roberto e o doleiro Alberto Youssef, constam mais planilhas com indícios de pagamento de propina a mais empreiteiras. As principais estavam em poder de Youssef. Essas planilhas mostram valores recebidos pela MO Consultoria e pela GFD Investimentos, as duas empresas de fachada de Youssef que recebiam valores de empreiteiras com contratos na Petrobras. Os valores são contados como “repasses” ou “comissão”. A PF suspeita que se refiram a propina.

Até agora, pesavam suspeitas contra 13 empreiteiras. Nas planilhas inéditas apreendidas com Youssef, aparecem registros atribuídos a propina de duas novas empreiteiras: Jaraguá Equipamentos Industriais e o consórcio Conest, formado pela Odebrecht e pela OAS. A Jaraguá Equipamentos Industriais tem negócios com a Petrobras desde a década de 1960. Mais recentemente, ela fechou pelo menos três contratos com a estatal. Dois deles, em novembro de 2010, no valor de R$ 200 milhões, para trabalhar nas obras e montagem da Refinaria Abreu e Lima. Quatro meses depois, um terceiro, num consórcio com a Egesa, no valor de R$ 337 milhões, para atuar no Comperj. Antes de fechar esses negócios, a Jaraguá tratou de abastecer os caixas de campanha de cinco políticos do PP, como ÉPOCA revelou em março. Em um só dia, doou R$ 1,1 milhão para candidatos do PP — R$ 500 mil para o ex-ministro Mário Negromonte e R$ 500 mil para João Pizzolatti, ambos ex-líderes do PP na Câmara.

No material apreendido pela PF, a Jaraguá aparece em dois momentos: numa planilha de dinheiro recebido na conta da MO, repassando R$ 1,94 milhão em dois depósitos em 2011; e, noutra tabela recolhida com o doleiro, pagando “repasses” e “comissão”, num total de R$ 1,66 milhão para a GFD, entre março e julho de 2012.

Nessa segunda planilha, aparece também o Conest, consórcio formado por Odebrecht e OAS. Em dezembro de 2009, quando a Petrobras assinou cinco contratos para, finalmente, erguer a Refinaria Abreu e Lima, o Conest ficou responsável por executar dois dos maiores negócios do empreendimento. Do total de R$ 8,9 bilhões anunciados, o Conest obteve R$ 4,67 bilhões para construir oito unidades de destilação e purificação de petróleo. Esses cinco contratos de Abreu e Lima são alvo de processos no Tribunal de Contas da União. Em auditoria em 2010, ele apontou indícios de superfaturamento no total de R$ 1,32 bilhão, dos quais R$ 485 milhões estavam nos contratos com o Conest. No material obtido por ÉPOCA, na planilha do doleiro Youssef, o Conest aparece como “cliente” que pagou uma “comissão” de R$ 184.245,92, no dia 18 de julho de 2012, para a GFD.

Nos documentos apreendidos pela PF, há uma correspondência entre as contabilidades de Paulo Roberto e Youssef. A PF também encontrou parte da contabilidade de Paulo Roberto. No dia 20 de dezembro de 2012, a tabela de Youssef registra um valor de 1 milhão recebido da “CNCC” e classificado como “comissão”. No dia seguinte, uma das planilhas de Paulo Roberto registra como “entrada” R$ 260 mil e US$ 50 mil. No dia 15 de março de 2013, outra coincidência. Youssef registra um pagamento de R$ 373 mil a título de “comissão” recebida da CNCC e, no mesmo dia, Paulo Roberto registra como “entrada” R$ 100 mil.

Há três semanas, a empreiteira Sanko-Sider informou ter contratado as empresas de Youssef para trabalhos técnicos e de representação comercial. Negou irregularidades. Agora, adicionou uma informação: contratou a Costa Global, de Paulo Roberto, em janeiro de 2013, contrato desfeito três meses depois “por inexistência de resultados”. “Na época, não havia nada que o desabonasse”, afirmou.

A Jaraguá afirma que os depósitos para a MO, de Youssef, referem-se a um contrato para realizar consultoria comercial em meio à licitação da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco. O Consórcio CNCC (Camargo Corrêa e CNEC) informou, em nota, que “não tem nenhum relacionamento comercial com as empresas citadas e desconhece anotações feitas por terceiros”. A Odebrecht, que faz parte do Consórcio Conest, afirma que nem o consórcio nem a Odebrecht transferiram dinheiro para a GFD Investimentos, empresa de Youssef. Diz também que seus dirigentes não mantêm relacionamento com o doleiro. Ainda afirma que suas doações para campanhas eleitorais respeitam “rigorosamente os limites e condições impostos pela legislação eleitoral”. A OAS, outra empresa que integra o Consórcio Conest, não respondeu às questões de ÉPOCA até o fechamento desta edição. A Galvão Engenharia também não. A Petrobras e a BR Distribuidora informaram que não se manifestariam.

ÉPOCA Online
Diego Escosteguy, com Marcelo Rocha, Murilo Ramos e Flávia Tavares

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