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Petrobras: de menina dos olhos a ovelha negra de Dilma

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Graves denúncias de irregularidades e resultados financeiros pífios tiraram a Petrobras do rol de armas eleitorais do PT contra a oposição

É uma estratégia petista rotineira. Quando o jogo já não favorece o partido, mudam-se as regras — ou joga-se o tabuleiro fora. Nos idos de 2010, a candidata Dilma Rousseff bradava uma preocupação injustificada com uma possível venda da Petrobras caso seus opositores vencessem o pleito presidencial: "É um crime privatizar a Petrobras ou o pré-sal", disse ela, atacando o PSDB. "Eles só pensam em vender o patrimônio público", continuou Dilma, relacionando o futuro da empresa às privatizações dos setores elétrico e de telecomunicações que ocorreram durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. O episódio apenas explicitou uma dinâmica de propaganda repetida à exaustão pelo partido: ao explorar o nacionalismo, o PT espalhou o receio de que o PSDB venderia a estatal e, assim, abriria mão de um "patrimônio" dos brasileiros, criando um ambiente de medo em potenciais eleitores do candidato tucano da vez — no caso, José Serra. Pouco importava, neste caso, a falta de embasamento para a acusação. O partido não apresentava números ou argumentos fortes para mostrar os ganhos, de fato, que o país auferia ao sustentar tal empresa com recursos provenientes dos cofres públicos. Soube-se, mais tarde, que o apego profundo que o partido mantém pela estatal está à margem de qualquer discurso ufanista. A Petrobras transformou-se, em pouco mais de uma década, numa das estatais mais aparelhadas do país, onde o loteamento de cargos foi regra, não exceção. Muitos a chamam, em tom de blague, de Ministério.

O apego quase emocional à empresa vem se dissipando ao passo que o discurso do partido, convenientemente, mudou. Com a estatal envolvida em graves denúncias de irregularidades e desmandos administrativos, o governo tenta se desvincular. Quanto menos a Petrobras for assunto da campanha, melhor. Para isso, vale até voltar atrás em sua retórica nacionalista. "Se tem uma coisa que a gente tem que preservar, porque tem sentido de estado e país, é não misturar eleição com a maior empresa de petróleo do país. Isso não é correto, não mostra nenhuma maturidade", disse a presidente, no domingo, no Palácio da Alvorada.

O petróleo é nosso

O uso da Petrobras como arma na disputa presidencial vem de longe. Desde a primeira vitória de FHC, Lula sempre lançou mão do nacionalismo exacerbado — arma clichê de governos extremistas — para tentar assustar o eleitor. Tanto que em 2006, o tucano Geraldo Alckmin até vestiu o macacão da estatal para tentar desfazer a imagem, espalhada pelos petistas, de que o PSDB privatizaria a empresa. A retórica antiprivatizações foi usada sem filtros por Lula em todos os pleitos que disputou — e Dilma tornou-se adepta inveterada do discurso. Ainda em 2010, em debates entre os candidatos, a atual presidente voltou a usar o tema para atingir Serra. "Dá uma dúvida se eles são só a favor da privatização do pré-sal ou se são a favor da privatização do pré-sal e da Petrobras", afirmou, na TV Bandeirantes. Isso porque um assessor de Serra, David Zylberstajn, defendeu que o pré-sal fosse aberto à exploração de empresas estrangeiras, o que é uma prática comum no setor em todo o mundo. O candidato tucano nunca declarou apoio à ideia, muito menos à venda da estatal. Mas o PT viu nisso uma forma de jogar os tucanos contra a parede — e contra os eleitores.

O discurso da petista não correspondia à prática. Em seu governo, a própria Dilma leiloou a área do pré-sal a empresas estrangeiras. A diferença é a forma de privatização. Sob o regime de partilha, a Petrobras se transformou em sócia de todas as multinacionais na exploração. O governo usou o mesmo expediente para colocar nas mãos do setor privado aeroportos, rodovias e portos — faltando apenas as ferrovias, cujo processo de privatização ainda está no papel. Mas, à época, o que valia era o impacto eleitoral dos ataques à participação do setor privado na economia.

Longe, mas não muito

O distanciamento repentino, contudo, tem seus limites. Dilma não deixou a Petrobras à própria sorte porque sabe que isso pode prejudicar suas chances de permanecer na Presidência. Prova disso é que o governo não pestanejou quando viu a presidente da Petrobras, Graça Foster, prestes a ter seus bens bloqueados pelo Tribunal de Contas da União (TCU), e atuou de forma inédita por meio do advogado-geral da União, Luís Inácio Adams. Às pressas, Adams se dirigiu ao TCU para fazer uma sustentação oral em favor de Graça, argumentando que a indisponibilidade de seus bens poderia ferir a imagem da estatal e, por consequência, prejudicar seus resultados. Foi a primeira vez que o chefe da AGU fez movimento semelhante.

TEATRO
Parecia uma encenação — e era mesmo. As perguntas que seriam feitas pelos parlamentares da CPI ao ex-presidente da Petrobras Sergio Gabrielli foram enviadas a ele antes do depoimento por José Eduardo Barrocas, chefe do escritório da estatal em Brasília, que aparece no detalhe da foto

Nomes do alto escalão do Palácio do Planalto também foram ao socorro da estatal para orquestrar um verdadeiro teatro, revelado por VEJA, durante a CPI que apurou as irregularidades na compra da refinaria de Pasadena, no Texas. A farsa consistia em coletar as perguntas com os parlamentares e passá-las antes aos interrogados, para que pudessem se preparar (e serem treinados) para dar as respostas certas. A compra de Pasadena resultou em perdas de quase 800 milhões de dólares para a estatal e tem como personagem a própria Dilma, que atuava como presidente do Conselho de Administração da empresa. A Comissão também deveria apurar o envolvimento de executivos da empresa na Operação Lava Jato — um ardiloso esquema de lavagem de dinheiro comandado pelo doleiro Alberto Youssef. Sabe-se, hoje, que tudo não passou de uma grande mentira.

Conta não fecha

Não fossem os escândalos suficientes, há ainda os números — esses, sim, contundentes o bastante para fazer o governo rapidamente deixar de lado o orgulho inflamado que a estatal costumava despertar. Nas mãos do PT, a Petrobras passou por seu melhor momento com a descoberta do pré-sal, em 2007, mas também chegou ao fundo do poço ao final do governo Dilma. Entre 2010 e 2013, o lucro da empresa recuou 28% e seu endividamento avançou de 117,91 bilhões de reais para 267,82 bilhões de reais. Ao levar em consideração os números do último balanço, referente ao segundo trimestre de 2014, a dívida salta para 307 bilhões de reais, o que a torna a empresa de petróleo mais endividada do mundo. A capitalização de 120 bilhões de reais feita em setembro de 2010, com o objetivo de levantar recursos para financiar o plano de investimentos da empresa, teve efeito praticamente nulo. O dinheiro foi usado para financiar o caixa da empresa, que é submetido a constantes baques por ter de bancar os subsídios ao preço da gasolina. Por isso, a estatal se viu obrigada a levar adiante um audacioso plano de vendas de ativos para levantar capital e conseguir investir. Foi por meio desse plano, inclusive, que veio à tona o malfadado negócio feito em Pasadena e revelado por VEJA em 2012.

A estratégia do PT deu tão errado que a Petrobras se tornou espécie de mensageira dos investidores. As ações da empresa são penalizadas sempre que pesquisas eleitorais mostram resultados favoráveis a Dilma — e ocorre o inverso quando os números mostram Aécio Neves mais forte. A dinâmica esquizofrênica se torna ainda mais evidente porque os investidores, em especial os especuladores, têm ignorado suspeitas gravíssimas de corrupção contra a empresa ao fazerem suas movimentações financeiras. Parecem levar em conta em suas análises apenas a expectativa de permanência do PT no governo. Não à toa, logo após a estatal divulgar resultados decepcionantes em relação ao segundo trimestre (queda de 20% em seu lucro), suas ações vêm subindo exponencialmente. Fecharam em alta de quase 8% apenas nesta sexta-feira, com investidores celebrando a provável candidatura de Marina Silva na corrida eleitoral, o que sepultaria as chances de Dilma vencer no primeiro turno.

Veja Online

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