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Petralhas sem ter o que prometer

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Entra debate, sai debate, entra entrevista, sai entrevista, e uma coisa não acontece no coração da campanha eleitoral — a presidente Dilma Rousseff dizer ao perplexo eleitor o que ela pretende fazer se as urnas de outubro a mantiverem por mais quatro anos no governo do País. É uma omissão espantosa, por onde quer que se a encare. Admitindo, apenas para raciocinar e na contramão de todas as evidências, que o seu mandato tenha sido a maravilha que ela alega e que só não foi a maravilha das maravilhas por culpa de uma persistente perversão do sistema econômico mundial — a sua suposta incapacidade de se recuperar da crise financeira de 2008, ou seja, de seis anos atrás —, soa no mínimo estranho que a candidata peça um crédito de confiança válido até 2018 lastreado exclusivamente no que apregoa ser o seu meritório desempenho passado.

Quanto mais não seja, o crescimento da candidatura Marina Silva nas pesquisas, a ponto de emparelhar com ela na liderança das intenções de voto, e a perspectiva de uma vitória da rival no segundo turno deveriam fazê-la enxergar o raquitismo da estratégia adotada, segundo a qual os feitos que ela não se cansa de alardear seriam suficientes para levar a maioria do eleitorado a renovar o seu contrato de locação do Planalto. Ora, os seus fracassos como líder nacional (haja vista a sua liderança nas sondagens no quesito "rejeição") e gestora da economia (haja vista a recessão a que ela derrubou o sistema produtivo, sem conseguir derrubar igualmente a inflação) não autorizam que se conclua que ela fracassa também em entender que as expectativas de futuro são o fator determinante das escolhas eleitorais. Não é por aí, portanto.

Toda votação, no limite, é um cotejo entre manter ou mudar. Mesmo quando a tendência da maioria é manter, esse desejo depende de algo mais do que da insistência dos incumbentes em prometer que continuarão no caminho que deu tão certo. Para persuadir o público de que "o bom vai ficar ainda melhor", têm de apresentar os seus projetos para tanto. Imagine-se então o que teria de prometer uma candidata à reeleição que, além de ter contra si os 35% dos eleitores que dizem que não votarão nela "de jeito nenhum", foi posta diante do desafio de se haver com os 80% do eleitorado que exige mudanças na condução do governo — dos quais apenas uma minoria acredita que elas virão com ela. Apesar disso, é ensurdecedor o silêncio de Dilma em relação ao que pretende fazer pelo País nos próximos quatro anos.

O que a presidente tem dito — além de acusar Marina de acenar com projetos da ordem de R$ 140 bilhões sem explicar de onde virá esse dinheiro e de profetizar que os planos do tucano Aécio Neves provocarão o desemprego — é quão difícil é ser presidente ("tenho de matar um leão por dia, escalar um Himalaia por dia"), que a imprensa não divulga as majestosas realizações de seu governo no campo da infraestrutura e que "o pessimismo" impede que a economia esteja ainda melhor do que está, apesar da "crise" no exterior — sem recessão nem inflação. No debate de anteontem, Marina foi ao ponto quando disse que a rival, por ser incapaz de reconhecer qualquer erro que tenha cometido, é também incapaz de se corrigir. E, acrescente-se, de trazer ideias concretas e inovadoras para o debate sobre o futuro imediato.

Ajuda a complicar as coisas para Dilma o fato de ela não ter do que se gabar em matéria de avanços sociais comparáveis aos de seu antecessor. Quando fala das "nossas" conquistas, apropria-se indevidamente do legado de Lula. A propaganda enganosa inclui também ela creditar a si a redução da pobreza e o advento da nova classe média — a qual, aliás, passou a consumir menos em razão da alta dos preços e da incerteza em relação aos empregos que respaldaram o seu endividamento familiar. Eis por que, se o eleitor do Bolsa Família (renda familiar de até 2 salários mínimos) ainda continua majoritariamente fiel à presidente, dando-lhe 48% das preferências, ante 43% para Marina, no estrato emergente e cada vez mais ressabiado (de 2 a 5 salários), a ex-senadora leva a melhor por 54% a 36%.

Dilma tem cada vez menos o que prometer para um número cada vez maior de eleitores.

Editorial do Estadão

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