Abobado

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Isso é que é popularidade – Trabalhadores receberam R$ 140 para aplaudir Dilma em inauguração meia-boca de obra no Rio de Janeiro

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Segundo os operários, despesas foram pagas pelas empreiteiras responsáveis

PÃO COM MORTADELA
Festa garantida. A popularidade da soberana funciona na base do cachê

Durante o evento de inauguração do BRT Transcarioca (corredor exclusivo de ônibus), só puderam acompanhar o discurso da presidente Dilma Rousseff convidados e trabalhadores da obra, munidos de bandeiras do Brasil nas mãos.

Eram cerca de 150 trabalhadores, contados pela reportagem. À Folha, eles contaram que receberam uma diária para ir ao evento: R$ 140. O valor é maior do que em um dia normal de trabalho, já que, por ser um domingo, está embutido o adicional de 50% de hora extra.

Nenhum deles quis se identificar. Tampouco reclamaram de estar lá. Receberam café da manhã e teriam direito ao almoço. Segundo os trabalhadores, a despesa correu por conta das empreiteiras (Andrade Gutierrez, Carioca e OAS). Procurados, representantes das empresas não foram localizados no local nem nos telefones dos escritórios.

As bandeiras que figuravam no evento também eram vistas ao longo de todo o trajeto da presidente Dilma que fez, de ônibus, o percurso entre o aeroporto do Galeão (Ilha do Governador) até Madureira, ambos na zona norte do Rio.

O caminho da presidente na obra do BRT Transcarioca, inaugurada por ela, foi tranquilo, rápido e embalado por muito samba. Às vésperas de Copa, Dilma não viu manifestantes e a segurança foi reforçada por muitos militares. Um reforço especial foi montado no morro da Serrinha, próximo à estação onde a presidente fez seu discurso.

Ao longo do caminho, houve também um certo clima pró-copa. O colorido verde-e-amarelo do trajeto teve bandeirinhas do Brasil, nas mãos de algumas pessoas em esquinas do trajeto.

No percurso, Dilma, sempre dentro do ônibus, foi recebida em cruzamentos e viadutos, desde a Ilha, com muito samba, tocado ora pela bateria da União da Ilha do Governador, na ponte estaiada próxima ao aeroporto do Galeão, ora pelas velhas guardas de outras escolas de samba ou rodas tradicionais do ritmo. Entre elas, os partideiros do tradicional bloco "Cacique de Ramos", no bairro homônimo (zona norte, por onde passa a via do BRT), e membros da Portela e do Império Serrano, em Madureira, bairro que é berço dessas duas agremiações cariocas. Suas origens e sedes estão no bairro — o morro, policiado, da Serrinha é a "casa" do Império.

OBRA PELA METADE PADRÃO PT
Estação do BRT do Rio de Janeiro sem catrcas, bancos e monitores

Pelo trajeto, a visão também não era alentadora: Dilma passou perto da "poluída" baía da Guanabara e de homens do Exército, que patrulhavam becos e vielas de entradas das favelas do complexo da Maré, ocupado por forças de segurança. Havia, ainda, algumas estações da obra ainda à espera de finalização, como a instalação de catracas, bancos e monitores. Faltava também recolher o entulho de fim de obra e fazer a limpeza do local.

A obra, que faz parte do programa federal PAC 2 de mobilidade urbana, foi inaugurada em clima festivo, graças, em boa medida, aos sambistas presentes ao evento. Entre eles estavam Monarco, da Portela, e a imperiana Dona Ivone Lara, uma das maiores compositoras de samba do país.

Os sambistas têm uma forte ligação com o prefeito Eduardo Paes. Além de ser responsável pelo Carnaval, a prefeitura reformou as quadras de escolas tradicionais, como Portela, Imperatriz Leopoldinense, Império Serrano e União da Ilha. Todas mandaram representantes à inauguração.

Folha Online

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Bandidagem: Cabral, Pezão e os ‘factoides’ contra as chuvas de verão

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Governos federal e estadual ainda estão em débito com as vítimas da chuva de 2011, quando desapareceram na lama algo entre 900 e 1.000 moradores da Região Serrana do Rio

A chuva da última semana na Região Metropolitana do Rio de Janeiro tirou de casa cerca de 10.000 pessoas – número do total de desabrigados e desalojados. Uma reunião de emergência pôs à mesa, no Centro Integrado de Comando e Controle do Estado, o governador Sérgio Cabral, o ministro Francisco Teixeira, da Integração Nacional, e prefeitos da Baixada Fluminense, região mais afetada. Depois de cerca de três horas a portas fechadas, Cabral deixou o prédio apressado. Àquela altura, havia cunhado com assessores a “solução” para a crise do momento. Caberia ao vice-governador e pré-candidato ao governo pelo PMDB em 2014, Luiz Fernando Pezão, anunciar a “patrulha de limpeza”. Cabral pouco depois decolou de helicóptero, passando por cima da Baixada e rumando para o Sul do Estado, para inaugurar um centro de socioeducação em Volta Redonda e posar para fotos.

A tal “patrulha de limpeza”, criada a partir de uma sugestão do prefeito de Duque de Caxias, Alexandre Cardoso, até agora carece de explicação mais precisa. Acredita-se, pelo que se afirmou após a reunião, que seja o poder público fazendo depois da tragédia o que não fez antes do temporal: limpar locais de risco e evitar que ruas, rios e redes de drenagem – quando existentes – fiquem entupidos e alaguem as casas. Como têm feito nos últimos anos, Cabral, Pezão e seus pares responderam à tragédia com um fato político, um pedido de verbas ao governo federal e nenhuma explicação sobre o que foi prometido e não executado. A principal lacuna, como sempre, é o investimento em habitação, em remoção de pessoas de áreas perigosas e a criação de moradias populares longe das áreas com risco de inundação ou deslizamentos de terra.

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Fora alguns representantes da Defesa Civil, o encontro para resolver a questão dos desabrigados não previa a participação de quadros técnicos, era o reino dos políticos. “São decisões para atravessar um momento emergencial com a menor perda política possível. O mais grave é que apontam para uma continuidade de uma cultura de emergência”, diz o geólogo Álvaro Rodrigues dos Santos, ex-diretor do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT).

Governos federal e estadual ainda estão em débito com as vítimas da chuva de 2011, quando desapareceram na lama algo entre 900 e 1.000 moradores da Região Serrana do Rio. O repertório de medidas inclui os “gabinetes de crise”, as “forças tarefa” e as expressões do gênero. Os anúncios se assemelham aos “factoides” criados pelo ex-prefeito Cesar Maia, que se especializou em cunhar termos e anunciar projetos de alto impacto na opinião pública – nem sempre exequíveis ou desenvolvidos de fato.

Para evitar mais mortes e perdas para as famílias em risco, o básico não foi feito: uma cerimônia com participação da presidente Dilma Rousseff anunciou, logo depois da tragédia da serra, 8.000 residências para as vítimas da chuva e famílias em situação de risco. Só 500 foram entregues, e o número total foi revisto para cerca de 4.000, como mostrou reportagem do site de VEJA. Também foram prometidos dois radares meteorológicos que, depois de um adiamento, tinham previsão de funcionamento já neste verão – ficaram para o próximo.

Têm sido mantidas as soluções provisórias. Desde fevereiro de 2011, já foram gastos 203 milhões de reais com o pagamento do benefício a 13.711 famílias. O valor é oito vezes o que foi gasto para construir 1.500 unidades habitacionais do Minha Casa Minha Vida na Baixada Fluminense. E o equivalente para a construção de cerca de 12.600 apartamentos.

Um levantamento do Departamento de Recursos Minerais do Estado do Rio (DRM) indica que cerca de 83.000 pessoas vivem em áreas de risco de desastre iminente no Estado. O estudo também encontrou 2.800 pontos com risco de deslizamento – problema presente em todos os 91 municípios, além da capital, que tem seu próprio órgão de controle e estudos geológicos. Nessas áreas perigosas há cerca de 20.800 moradias.

Capital

As respostas emergenciais com factoides também serviram ao prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PMDB). Na capital fluminense, as chuvas da semana passada inundaram residências e paralisaram o tráfego em vias importantes como a Avenida Brasil e a Radial Oeste. Foi alagada até a Via Binário [foto], inaugurada há um mês, na Zona Portuária, para suprir a demanda do tráfego da Perimetral. Como se fosse algo acessório, Paes revelou que diversas obras de drenagem da Via Binário não foram concluídas e, sem esclarecer como, prometeu multar a concessionária Porto Novo, responsável pelas obras de revitalização da Zona Portuária.

Veja Online

O Complexo do Alemão e o complexo da imprensa. Ou: Afinal, para que servem os jornalistas?

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Quem manda é a bandidagem: Escola no Complexo do Alemão, Rio de Janeiro, fechada por ordem dos traficantes. Quase 12 mil alunos sem aula!

Os traficantes voltaram a dar, explicitamente, as ordens no Complexo do Alemão. Na verdade, nunca deixaram de fazê-lo. O comércio foi fechado nesta quinta, e quase 12 mil crianças ficaram sem aula. A se dar crédito ao discurso oficial e ao oficialismo que tomou conta de setores majoritários da imprensa nesse caso, isso não deveria ter acontecido. Supostamente, já se havia superado essa fase; já se estava num outro patamar.

Sim, os meus críticos têm razão num particular: “Você fica aí sentado na sua cadeira; nunca foi ao Alemão para ver de perto a vida das pessoas!” É verdade! Nunca fui. Sabem a importância que isso tem? Nenhuma! Zero! Respondo a essa restrição com um caso extremo, para ser didático: um correspondente de guerra que coloque as bombas da hora acima da história e da lógica fará um péssimo trabalho. Estará vivendo o conflito quase na carne sem entender nada. O caso da Síria, em curso, é ilustrativo. Demorou um tanto até que se percebesse que o carniceiro Bashar Al Assad está sendo confrontado por forças que consagram, desgraçadamente, os métodos do… carniceiro Bashar Al Assad!!! E quem impediu o mundo de enxergar isso com clareza, infelizmente, foi gente que estava lá. Experimentar a realidade pode ser um caminho muito curto e convincente para o equívoco. Nascemos, é verdade, como tabula rasa, mas a segunda amamentação já começa a nos irrigar de relações causais e lógica. O verdadeiro aprendizado é aquele que se transforma em conceito.

Há várias maneiras de exercer uma determinada atividade profissional, e isso sempre depende do propósito que se tenha. Jornalismo, por exemplo! Destaco duas, nenhuma delas dolosa — como veem, excluo de saída os que são pagos com dinheiro público para exercer o gênero encomiástico e para difamar os inimigos da Coroa. A imprensa pode, diante de um determinado caso, qualquer um, fazer uma abordagem crítica, independente, ressaltando os aspectos positivos (se houver) de uma determinada medida oficial, e os negativos, se houver também. É claro que os sinais de “mais” e de “menos” têm um ponto que serve como referência. Afinal, como é sabido e como está consagrado nas democracias, veículos de comunicação — e, nos tempos da internet, sites, blogs, portais etc — têm uma linha editorial. Fiquemos num caso já clássico: devemos ter menos ou mais estado na economia? Alguns preferirão a resposta dada por Deng Xiao Ping, como exemplo máximo do pragmatismo virtuoso: “Não importa a cor do gato; o importante é que cace ratos”. Parece bom, mas não é! Se o gato exigir ser dono da casa para caçar ratos, então não é um bom gato. No caso da China, a eficiência do bichano só é possível porque o regime é tirânico. A eficiência de uma tirania é algo com que devamos nos conformar? Escolhas, escolhas… Eu, por exemplo, acho que não. Prefiro o regime de liberdades públicas dos EUA, ainda que a democracia traga consigo algumas deseconomias. O livro-caixa é um instrumento do estado democrático, não o seu senhor. Falei até agora de uma postura, a crítica — aquela que é feita segundo a ótica de quem não é poder. Entendo ser ela um dos pilares da democracia.

Há uma segunda, que, reitero, também é não-dolosa: é a colaborativa, a engajada. Nesse caso, o papel da imprensa seria o de linha auxiliar do estado. Em vez da crítica, considerada constrangedora, por que não a abordagem senão elogiosa, mas afirmativa ao menos? Afinal, se todos queremos o bem do Rio, do país, da humanidade, há de haver entre nós o lugar do consenso. Muita gente, de boa-fé, sem qualquer ânimo para a censura, reprova o papel da imprensa, que sempre estaria interessada na má notícia, nos aspectos negativos da realidade, porque, dizia-se antigamente, quando esta era uma questão pertinente, “vende mais jornal”. A ilação embutia um pressuposto: o de que o leitor tinha um lado masoquista — eventualmente sádico no caso de que a má notícia não lhe dissesse respeito. Participei, há muitos anos, de uma tertúlia profissional, equivocada desde a convocação, para que se debatesse esse assunto. E se chegou, então, a uma formulação editorial que vinha até com uma chancela gráfica: “Boa Notícia”. Vale dizer: incorporava-se como verdade a crítica infundada de que a “má notícia” era o nosso filão principal e de que seria preciso treinar o olhar para importunar menos o leitorado, eventualmente as “otoridades”, com assuntos desagradáveis. É claro que foi um tiro n’água. Os meios estavam errados, e os meios sempre qualificam os fins.

Um jornalismo que vivesse, ainda que com bons propósitos, da mera justificação do presente não tardaria a incorporar, ele mesmo, a lógica do poder. Em vez de exercitar um conjunto de valores, passaria a ser o administrador de um conjunto de estratégias para, então, preservar O poder e se conservar NO poder. Não tardaria a considerar que todos os males do mundo — ou, vá lá, do país — decorreriam do dissenso; da ação deletéria de pessoas ou grupos que, em vez de colaborar com o bem comum oficialmente definido, dedicam-se à sabotagem. Não é uma tentação que esteja apenas na cabeça dos estúpidos e dos venais. Um homem inteligente e inegavelmente talentoso como Máximo Gorki justificou e aplaudiu todos os crimes de Stálin. Escreveu um livro exaltando, por exemplo, a construção de Belamor, o canal entre os mares Báltico e Branco. Foi feito com a mão de obra escrava dos prisioneiros. Nada menos de 170 mil pessoas! Vinte e cinco mil morreram em um ano e meio… Gorki acreditava sinceramente no socialismo… A honestidade da convicção não faz a boa obra. Se o jornalismo abre mão da crítica, contribui para a esclerose do poder. O consenso é, nas democracias, o que a censura é nas ditaduras.

Lidei, até agora, com ideias gerais, com valores, com conceitos. A minha crítica, insistente e persistente, ao modelo de segurança pública adotado no Rio de Janeiro não tinha e não tem origem no simples ânimo da discordância, na divergência como fetiche ou alegoria de mão. Tampouco decorre de alguma restrição de natureza ideológica — embora eu ache legítimo o debate ideológico, deixo claro. Levar o estado ao território ocupado pelo narcotráfico é, para mim, uma questão de princípio. Os textos que escrevi antes mesmo da existência do blog estão devidamente impressos. Eu os tenho todos. Quero-me um dos primeiros que lançou justamente a questão da “recuperação do território”. Os morros do Rio e a periferia de algumas grandes cidades do Brasil eram — ou são ainda, no mais das vezes — “países” dentro de um país, regidos por leis particulares. Não fosse assim, o tráfico não decretaria o fechamento do comércio e das escolas, como voltou a fazer no Complexo do Alemão.

Nunca me opus, por óbvio, à chegada das ditas “unidades pacificadoras” às favelas do Rio — que o eufemismo influente passou a chamar de “comunidades”. Não gosto do nome, e escrevi isso desde o primeiro dia. “Unidade pacificadora” por quê? Vai se celebrar a paz entre quem e quem? Quem é o “outro lado” admitido, então, como interlocutor aceitável no acordo — já que “a paz” supõe, necessariamente, a concordância entre as partes? O nome é ruim porque traz, implícita, a ideia de que se reconhece o narcotráfico como força beligerante legítima. Conceitualmente, o que se está a fazer é admitir que a realidade “de fato” constitui a realidade possível. E, obviamente, não posso concordar com isso. Uma polícia nunca é “pacificadora”, então. Ela deve ser a encarnação da ordem democrática. Ela é, como já escrevi, a democracia que veste uniforme e que tem o monopólio, entre os civis, do uso da força.

Por que a questão conceitual é importante? Porque ela enseja uma prática. Ao se admitir que uma polícia “pacifica”, em vez de reprimir o crime, admite-se também que os traficantes — ou aqueles que se beneficiam da desordem — não precisam ser punidos por seus atos porque isso, afinal de contas, seria investir na guerra, no confronto, num modelo supostamente velho de segurança pública, com resultados comprovadamente perniciosos. Ora, o que estava errado, antes, não era o confronto com o crime, mas a prática de incursões nos morros para, depois, deixar a população ao deus-dará. O que estava errado — e este problema ainda não foi resolvido — era a corrupção policial. E não só no Rio de Janeiro, é evidente.

O que sempre critiquei, de maneira quase isolada, e continuo a criticar, é o fato de a “pacificação” do Rio trazer consigo a prática — nefasta, deletéria, absurda — de espantar bandidos em vez de prendê-los. Ou, então, de permitir que continuem a exercer suas atividades criminosas, desde que não aos olhos do público. O que previ desde o primeiro momento está em curso: não tardaria para que as unidades de segurança do estado passassem a conviver com o crime organizado numa espécie de pacto de não-agressão, eventualmente quebrado quando “radicais” de um lado ou de outro exorbitam, vão além daquilo que foi pactuado.

Ora, os criminosos mais notórios que são desalojados das “áreas pacificadas” vão, é claro!, aterrorizar as não-pacificadas — e há mais de 1.200 “comunidades” no Rio! Quantas contam com UPPs? Vinte poucas? Niterói que o diga. Um bando de criminosos fugidos de favelas do Rio foi preso no Paraguai. Ainda que pareça estúpido fazê-lo, é preciso deixar claro: sou crítico dos aspectos deletérios da política de segurança, não do que há de virtuoso nas escolhas feitas. Mas não só isso: também sou crítico de uma certa visão deslumbrada, marqueteira, propagandística, de que se encontrou uma “nova forma” de combater a violência.

As UPPs, propaganda e aspectos negativos à parte, nada mais são do que policiamento preventivo e comunitário. A novidade, no caso, está no fato de esse policiamento ter chegado àquelas áreas, coisa que se deve aplaudir. O Rio não inventou nada de novo — está cumprindo uma obrigação do estado. E obviamente, reconheço o esforço nesse sentido. Mas continuo a achar insano o entendimento de “pacificação” que se traduz também numa política deliberada de não prender criminosos — a não ser em casos excepcionais, que rendem holofotes.

Espírito do tempo

É claro que essa escolha se dá num momento em que o lobby em favor da legalização das drogas — já não é mais da simples descriminação — assume uma força inédita na imprensa. Nesse caso, as palavras de “paz” de José Mariano Beltrame e Sérgio Cabral soam como música aos ouvidos, pulmões, lábios, narizes… Noto que se vai formando um “consenso” em favor de uma legalização que, atenção!, não existe em lugar nenhum do mundo, nem na Holanda, para citar o caso extremo da liberalidade.

É a droga ilegal que faz o criminoso?

Os marginais que ainda assombram as “comunidades” seriam, nessa versão, apenas “pequenos traficantes”, que só pressionariam e onerariam o sistema prisional se fossem trancafiados. Nessa perspectiva, eles seriam, antes de mais nada, vítimas de um modelo caduco de combate às drogas. Se elas fossem legais, a realidade seria outra. Assim, esses supostos empiristas insistem em saber como seria um mundo em que tudo fosse permitido. Destituídos de um pensamento econômico elementar, não se dão conta de que aqueles que escolhem atuar no tráfico, pequeno ou grande, escolhem um atividade mais rentável do que a remuneração de um trabalho legal. Se a venda de entorpecentes, então, fosse legal, também a remuneração dos que se dedicassem a esse ramo cairia, nivelando-a, sei lá, com a recebida por quem vende sorvete ou sanduíche.

Ocorre que que aquele que escolheu o tráfico não estava contente com seu nível de renda nem enxergou, na legalidade, uma alternativa ou um caminho para um ganho suplementar. Antes de optar pelo tráfico, meus caros, ele optou pelo crime. Se as drogas forem legais, escolherá outra atividade criminosa que remunere adequadamente as suas ambições e o seu risco. Não é a ilegalidade de substâncias que faz os criminosos; os que decidem delinquir encontram nela um caminho. Se não estiver disponível, eles se decidirão por outro: crimes contra o patrimônio, latrocínios, exploração sexual, imaginem aí… O que alimenta o ciclo da criminalidade não é a ilegalidade da droga, mas a impunidade — seja lá qual for o delito praticado. E haveria, é certo!, o desastre social e de saúde pública decorrente da legalização, com a maior exposição de crianças e adolescentes a drogas que predispõem os usuários para o tudo ou nada. O aumento de latrocínios no Brasil inteiro, podem apostar, decorre da epidemia do crack.

Num momento, pois, favorável à legalização das drogas, uma política como a do Rio — que entende a “pacificação” como o não-confronto com o crime; que se orgulha de “ocupar comunidades” sem enfrentamento com a bandidagem — surge como a resposta supostamente inatacável, consensual, de mero bom senso, ao problema da violência. Ela só desagradaria a pessoas como eu — e mais a uns dois ou três — que nunca estão contentes com nada; que preferem “falar mal” a colaborar; que escolhem apontar problemas em vez de aplaudir soluções; que são movidas pelo espírito de porco do dissenso, não pelas virtudes do consenso.

Pois é… Poderia responder como naquela música: “Esse cara sou eu…” Mas não serve. Em primeiro lugar, há mais divergência na sociedade (ainda que os partidos de oposição não o percebam…) do que supõe o coro dos contentes — e são muitos “os caras e as caras”. Em segundo lugar, mas não menos importante, considero, como queria Drummond, “a enorme realidade”. Os episódios recentes no Complexo do Alemão me dão — e a outros que preferiram o caminho do dissenso — razão. E já que falei no poeta: “O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente.”

No fim das contas, a gente até pode perguntar: “Mas para que servem os jornalistas?” José Dirceu, por exemplo, tem ideias muito claras a respeito.

Por Reinaldo Azevedo

Em um país sério, tragédia como a de Duque de Caxias já teria mandado à cadeia um punhado de autoridades

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Vista de áreas alagadas pelas chuvas dos últimos dias na Baixada Fluminense (Foto: Genilson Araújo/Agência O Globo)

As horas passam e a tragédia em Duque de Caxias, na Baixa Fluminense só aumenta. O mesmo ocorre em outras cidades do Rio de Janeiro, castigadas pelas chuvas e sem nenhuma ação antecipada por parte do governo para evitar calamidades que se repetem há séculos.

Com pessoas mortas e desaparecidas, além de famílias que perderam casas e pertences, a presidente Dilma Rousseff continua impávida e colossal, descansando à beira-mar na Base naval de Aratu, no litoral baiano, em companhia da mãe, da filha e do neto. E logicamente com séquito de servidores à disposição, tudo financiado pelo suado dinheiro do contribuinte.

A cada ano, diante das seguidas tragédias naturais, as promessas de solução surgem como as toneladas de terra que deslizam dos morros e levam de roldão pessoas e histórias de vida. Após o desastre que quase dizimou inúmeras cidades da serra fluminense, muitos municípios ainda aguardam a reconstrução, uma vez que ocorreu o desvio do dinheiro destinado às obras.

Em 2012, o governo federal investiu apenas um terço do valor previsto para o combate aos desastres provocados pela natureza. Sempre emoldurado pela desfaçatez, o governo federal sequer deu uma explicação para o descaso. O ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra encontra-se com o governador Sérgio Cabral Filho, do Rio de Janeiro, nesta sexta-feira, apenas para cumprir tabela, até porque fazer algo agora é tarde demais.

O importante era evitar a tragédia, o que não foi feito por causa da conhecida incompetência que marca o governo do PT, que trocou o mensalão pelo loteamento dos ministérios, onde foram instalados incompetentes com indicações político-partidárias.

Em um país minimamente sério, com doses exíguas de responsabilidade, a presidente Dilma Rousseff e o ministro Fernando Bezerra já estariam presos pelo crime de omissão. Cabral Filho, o fanfarrão de sempre, faria companhia à dupla, pois deixou de cobrar o governo federal a verba que poderia ter evitado mais uma tragédia no Rio de Janeiro.

De nada adianta fazer um réveillon pirotécnico na praia de Copacabana, quando se sabe que horas depois morros descerão e levarão pessoas, casas e tudo que estiver pela frente. Eis o Brasil, o eterno e empacado país do futuro.

Ucho.info

CPI do Cachoeira: Onde se esconde o laranja que pode escancarar o propinoduto da Delta

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VEJA desta semana revela que uma operação foi montada para ninguém chegar perto de Bruno de Freitas. Ele pode revelar o propinoduto da empresa no Rio
 

LIGAÇÃO PERIGOSA – Da favela para o condomínio Terra Nossa: Bruno (à esq.) tem muito que contar sobre seus negócios com a Delta de Cavendish (à dir.)

O paradeiro do contínuo Bruno Estefânio de Freitas, 20 anos, paira como um mistério na favela do Muquiço, Zona Norte do Rio de Janeiro, de onde ele evaporou sem deixar rastros há cerca de um mês. VEJA sabe para onde Bruno foi levado. Ele está instalado em uma confortável casa de condomínio fechado em Jacarepaguá. Atualmente, divide-se entre esse e outro endereço, onde vive sob permanente escolta de seguranças e de onde só sai mantendo-se invisível por trás dos vidros fumê dos carros.

Mas por que tamanho empenho para fazer o contínuo desaparecer de circulação? A resposta emerge das próprias investigações. Bruno é peça-chave na rede de laranjas e fantasmas aos quais a Construtora Delta repassou quase 1 bilhão de reais para irrigar campanhas e bolsos de políticos de todo o país. Recém-saído da adolescência e hoje desempregado, o rapaz consta como dono de uma pujante empresa de terraplenagem que, entre março de 2011 e maio de 2012, recebeu 33 140 000 reais da Delta.

VEJA revelou em julho que ele entrara no radar do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), do Ministério da Fazenda, ao chegar a uma agência bancária na Barra da Tijuca, com escolta armada, e sacar de uma só vez 5 milhões de reais. A CPI que investiga o bicheiro Carlinhos Cachoeira, enroladíssimo no esquema, está ciente da existência de Bruno – o único, entre vários laranjas já identificados, a ser flagrado com a mão na massa. Na semana passada, chegou-se a discutir sua convocação. Mas, em vez de darem o passo decisivo para revolver o lamaçal de corrupção, os deputados e senadores optaram por suspender os trabalhos até o fim do primeiro turno das eleições municipais.

Nas últimas três semanas, VEJA rastreou os passos do contínuo, que foi instalado com pai, mãe e irmãos em uma casa de quatro quartos, piscina e churrasqueira no Condomínio Terra Nossa, vizinhança onde os altos muros garantem a privacidade. Segundo um funcionário, há pouco mais de um mês um homem passou de carro pela portaria perguntando se havia casas para alugar. “Eu disse que tinha duas. Poucos dias depois, ele voltou com o caminhão de mudança acompanhado desse rapaz, o Bruno.” Desde então, o vaivém de veículos no lugar aumentou muito.

Em 12 de agosto, Dia dos Pais, Bruno foi visto circulando ali a bordo de um Gol preto, com um homem ao lado e mais dois carros atrás. “Parece um esquema profissional de escolta”, diz um vizinho. Há duas semanas, ele não é mais visto no condomínio. Tem passado a maior parte do tempo na outra casa próxima que o esquema de corrupção pôs à sua disposição.

No casarão do Terra Nossa, VEJA encontrou a mãe de Bruno, Sandra, que se assustou ao ser questionada sobre quem estaria escondendo seu filho: “Pelo amor de Deus, não pergunta nada porque eu não posso responder”. Proprietário do imóvel, o engenheiro panamenho Roberto Castrejón Cedeño afirma que o aluguel é pago em dia. “Não sei nada dessa história de laranja. Antes de fechar o negócio, chequei as informações do locatário e concluí que era uma pessoa idônea”, limita-se a dizer Castrejón. Tivesse se dado ao trabalho de visitar a sede da empresa da qual Bruno é sócio, a MB Serviços de Terraplanagem, em Saquarema, a 100 quilômetros do Rio, teria chegado a outra conclusão. No local funciona uma consultoria financeira onde ninguém nunca ouviu falar do contínuo. Além da Delta, a MB não tem nenhum outro “cliente”.

As respostas à maioria das questões que envolvem o nome do laranja estão ao alcance da CPI. O próprio quadro societário da MB fornece uma pista. Um dos sócios, Marcelo Astuto, é parceiro em outra empresa do operador de mercado financeiro Horácio Pires Adão, processado em 2005 junto com ninguém menos do que o dono da Delta, Fernando Cavendish – por fraudes no fundo de pensão dos funcionários da companhia de águas e esgotos do estado do Rio, Cedae.

O fato de ter ido a um banco e sacado milhões comprova que Bruno tem participação ativa no bando e, se resolver falar, pode implicar muita gente. “Temos informações de que ele não é um mero laranja, mas sim um operador do esquema do PMDB no Rio”, afirma o senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP), membro da CPI. Com os trabalhos em Brasília suspensos, o contínuo, que trocou de endereço duas vezes em um mês, ganha tempo para submergir de novo.

Veja Online

Corrupção e roubalheira: Garotinho entrega 68 quilos de documentos à CPI do Cachoeira. Cabral atolado na lama até o pescoço com a Delta sob a proteção dos petralhas

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O deputado Anthony Garotinho (PR-RJ) levou ao plenário da Câmara nesta terça-feira 68 quilos de documentos que, segundo ele, comprovam o suposto envolvimento do governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), com a construtora Delta. A pilha de papéis de quase um metro e meio foi repassada ao deputado Miro Teixeira (PDT-RJ) para ser disponibilizada à CPI do Cachoeira.

Garotinho afirmou que o envolvimento de Cabral com a construtora Delta é ainda maior do que a do governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB). Segundo investigações da Polícia Federal, a Delta repassou dinheiro para empresas fantasmas que abasteciam o grupo de Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira.

– O governo do Rio de Janeiro favoreceu a Delta em pagamentos superfaturados, em licitações fraudulentas, em obras que foram pagas e não foram realizadas – disse Garotinho, em vídeo postado em seu blog.

O deputado Miro Teixeira informou que o material foi encaminhado para a sala cofre da CPI. Ele ainda não tem conhecimento sobre o teor da documentação, que ainda será colocada à disposição de todos os membros da comissão.

– O puro e simples recebimento implicaria reconhecer que ali estão de fatos documentos comprometedores. Neste caso, é conveniente que se mande os funcionários encarregados proceder como os termos da lei, relatando o que eles contém, digitalizando e colocando à disposição de todos os membros – disse Miro.

O deputado explicou que a documentação é restrita aos integrantes da comissão, sendo que o presidente da CPI é quem deverá decidir o que será mantido em sigilo.

– Será uma decisão da presidência da comissão.

O Globo Online

Perillo vai à CPMI e manifesta disposição em falar na comissão

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Governador compareceu por vontade própria à reunião da CPI

O governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), afirmou nesta terça-feira (29) que não tem “qualquer envolvimento” com a quadrilha de jogo ilegal comandada pelo bicheiro Carlinhos Cachoeira. Perillo compareceu por vontade própria à reunião administrativa desta tarde da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito criada para investigar o elo do contraventor com políticos e empresários. O objetivo da presença foi demonstrar disposição em falar na CPI.

“Eu não fui flagrado conversando [com Cachoeira]. Há uma escuta em que eu cumprimento o empresário Carlos Cachoeira pelo seu aniversário. Não há nenhum envolvimento dele ou de sua organização no governo do estado. Nós tomamos todas as medidas neste um ano e meio de governo para combater jogos clandestinos, para combater máquinas caça-níqueis”, afirmou em entrevista após a reunião da comissão. Nesta quarta (30), deverá ser votado requerimento que pede a quebra de sigilo bancário de Perillo.

O governador disse não acreditar que seja ”justo” ter o sigilo quebrado, mas afirmou que, “como democrata”, respeitará a decisão que a CPI tomar. “Olha, eu já tive sigilos quebrados no passado. Cabe decidir se é justo ou não. Eu não sou alvo de investigação, não pesam sobre mim quaisquer acusações. De qualquer maneira eu sou um democrata e vou respeitar a decisão.”

Perillo afirmou ainda que os contratos do governo com a construtora Delta estão sendo auditados para verificar se há irregularidades. “Os contratos do governo do estado com a Delta são muito pequenos diante do volume de contratos que a Delta tem no Brasil. […] Todos eles estão sendo auditados e poderão pesar sobre eles qualquer tipo de investigação”, disse.

O relato da CPI, Odair Cunha (PT-MG), disse que não aproveitou a presença espontânea de Perillo para ouvi-lo porque "não é o momento" adequado para oitiva de governadores."A minha opinião é de que nós não devemos ouvir nenhum governador agora, porque precisamos identificar melhor quais os possíveis atos de crime praticados pelos governadores", jusiticou.

Segundo investigação da Polícia Federal, a Delta, uma das empresas com mais contratos com o governo federal, repassou dinheiro para empresas fantasmas que abasteciam o grupo de Cachoeira.

As investigações da Polícia Federal mostram que somente a Alberto & Pantoja Construções recebeu da Delta nacional R$ 26 milhões. A empresa funcionaria numa oficina mecânica, numa cidade perto de Brasília. Na conta da Brava Contruções, que, segundo a polícia, também é uma empresa de fachada que serve ao esquema de Carlinhos Cachoeira, a Delta nacional depositou pouco mais de R$ 13 milhões.

Nesta quarta, a CPI aprovou a quebra dos sigilos bancário, fiscal e telefônico da Delta nacional.

Na última reunião administrativa da CPI foram quebrados os sigilos das filiais da empresa no Centro Oeste, que estavam sob o comando de Claudio Abreu, preso pela Polícia Civil na Operação Saint-Michel, ação conjunta com a Polícia Federal.Claudio Abreu é citado em conversas telefônicas nas investigações da PF sobre a quadrilha do bicheiro

Convocação

Apesar da disposição do governador de Goiás em depor na CPI, a comissão voltou a adiar requerimentos de convocação de governadores. Além de Perillo, os governadores do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB), e do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT), são alvos de pedidos de convocação. .

A votação dos requerimentos estava prevista para esta terça, mas o deputado Gladson Cameli (PP-AC) apresentou questão de ordem dizendo que a comissão violaria o princípio de separação de poderes caso convocasse governadores. O senador Pedro Taques (PDT-MT) rebateu a posição do deputado. "Não há nenhuma interferência de poderes", afirmou o parlamentar.

Diante da divergência, o presidente da CPI, senador Vital do Rêgo (PMDB-PB) afirmou que consultaria a assessoria jurídica do Senado e daria uma resposta à questão de ordem na próxima reunião administrativa da comissão, marcada para o dia 5 de junho. O assunto poderá, contudo, entrar na pauta das votações desta quarta (29) da CPI. Portal G1